Indústria de carne dos EUA tenta driblar crise
A indústria de carne bovina dos Estados Unidos está tentando afastar os efeitos da recessão com a promoção de cortes mais baratos e tentando aumentar as vendas de seus produtos no mercado externo.
As medidas adotadas pela indústria de carne espelham as de restaurantes, supermercados e empresas de processamento de alimentos, que estão tentando atrair consumidores mais preocupados com o bolso, que estão comendo fora com menor frequência e procurando formas de economizar em casa. Como se isso não fosse o bastante, um novo estudo divulgado esta semana pelo Instituto Nacional do Câncer dos EUA concluiu que comer muita carne vermelha pode encurtar a expectativa de vida.
"Temos uma competição enorme no caso da carne", disse Gregg Doud, economista-chefe da Associação Nacional de Criadores de Bovinos. "Estamos nos assegurando de que vamos chegar (aos consumidores) antes que eles" escolham frango ou porco, que costumam ser mais baratos que a carne bovina.
As vendas de carne bovina estão caindo fortemente nos Estados Unidos porque os consumidores não estão mais indo a restaurantes. As vendas de carne a estabelecimentos que produzem alimentos caíram quase 5% no ano passado, segundo dados da Associação de Criadores. As vendas a supermercados e outros varejistas aumentaram 2% porque os consumidores passaram a cozinhar mais em casa.
Historicamente, metade de toda a carne produzida nos EUA é consumida pela indústria de preparação de alimentos, disse Doud. Mas as refeições em redes de alimentação casual - tipo Applebee's - caíram em parte por causa da recessão, de acordo com a Knapp-Track, que monitora as vendas de cerca de 10.000 pontos de venda de alimentos. De maneira geral, as vendas de cadeias de fast food como o McDonald's Corp. não sofreram tanto.
Na Tyson Foods Inc., produtora de carnes de frango e bovina do Estado de Arkansas que entrou no Brasil comprando indústrias de aves no ano passado, a venda de carne bovina caiu cerca de 7% no primeiro trimestre fiscal, encerrado em 27 de dezembro. A ação da Tyson está quase 50% abaixo da maior cotação dos últimos 12 meses.
A redução na demanda está repercutindo também no campo, onde os criadores americanos se veem às voltas com uma queda no preço do boi. Empresas de confinamento de gado perderam US$ 4 bilhões desde janeiro de 2008, principalmente porque o preço da ração disparou no ano passado, devido à alta demanda mundial por grãos, disse Doud, da Associação de Criadores.
Brady Rinehart, um pecuarista do Estado de Dakota do Sul, disse que está perdendo dinheiro em cada novilho que ele cria. "Está realmente difícil", afirmou. "Espero que as pessoas comam mais carne bovina."
Durante anos o consumo de carne bovina caiu nos EUA, diante do aumento da popularidade do frango, mas no começo desta década a dieta Atkins, que reduz o consumo de carboidratos, invadiu o país e impulsionou a venda de carne bovina. Hoje, a produção de todas as principais fontes de proteína animal - carne bovina, de porco e de frango - está em queda no país.
A Associação Nacional de Criadores de Bovinos e seu Comitê de Pesquisa e Promoção ampliaram esforços em supermercados para atrair consumidores menos inclinados a visitar um restaurante. Este ano a indústria vai distribuir 60 milhões de cupons de desconto no valor de US$ 1 ou mais para compras de carne. No ano passado, foram só 10 milhões de cupons.
O setor recentemente lançou um programa de educação online para ensinar os consumidores a fazer os melhores cortes tirando o maior proveito de peças mais baratas. Outro programa ensina o que os compradores devem fazer para congelar carne.
Não se sabe ainda como os consumidores reagirão a essas iniciativas, mas há claramente uma pausa em relação à venda de carne embalada pronta para usar, que foi foco de atenção do setor nos últimos anos.
Os representantes da indústria de carne estão oferecendo aos varejistas alternativas de marketing destinadas a tirar com mais rapidez a carne dos freezers dos supermercados, como o empacotamento de quatro pequenos bifes numa mesma embalagem, em vez de dois grandes. Eles também estão estimulando os supermercados a fazer promoções de carne.
O quilo do filé no varejo já caiu 9%, para US$ 11,25, ao longo do ano passado, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A indústria também está redobrando esforços para vender mais cortes de carne de uma variedade mais ampla de peças. Tradicionalmente, os consumidores preferem as carnes de corte de primeira. Elas também são as mais lucrativas para os processadores de carne.
Como os consumidores agora procuram barganhas em suas visitas ao supermercado, a indústria está tentando enfatizar cortes de peças mais baratas, não tão macias e com um pouco mais de fibra muscular. Os representantes do setor dizem que novas técnicas de corte tornam essas peças de carne mais saborosas.
O novo corte Denver, um bife tirado do músculo das costelas, está sendo testado em restaurantes. Outro corte, o bife de costela sem osso, está sendo testado em alguns açougues e supermercados.
Ao conseguir mais bifes das diferentes peças de um boi, a indústria do setor dá aos consumidores mais opções num espectro maior de preços, disse Doud. Os processadores de carne também podem conseguir maior ganho por rês. "Quanto mais bifes fizermos e menos hambúrgueres, melhor."
No cenário internacional, a Federação de Exportação de Carne dos EUA está aumentando os esforços para atrair consumidores do bife americano.
Embora as exportações americanas de carne tenham se mantido estáveis em relação ao ano passado, alguns analistas preveem declínio quando os consumidores estrangeiros reduzirem as compras. As exportações para a Rússia já caíram consideravelmente desde meados do ano passado, quando a economia do país foi abatida pelo queda do petróleo e pela crise financeira internacional.
"Estamos tentando movimentar cortes com mais valor", afirma Philip Seng, presidente da Federação de Exportadores de Carne Bovina.
No Japão, importante mercado para a carne exportada, a federação está tentando alcançar as lojas de conveniência que aumentaram as vendas nos últimos meses. Também está promovendo a carne americana como um ingrediente para refeições prontas para o consumo que têm ganhado mercado no Japão.
No México, a federação americana está despachando equipes de especialistas em carne bovina, apelidados de "Pepes", para açougues, mercados e supermercados, para que ensinem aos consumidores como preparar os cortes de carne americana.