Floresta abrigou o primeiro milharal, diz estudo

30/03/2009

Floresta abrigou o primeiro milharal, diz estudo

 

 

O milho e a abóbora foram domesticados há pelo menos 8.700 anos nas florestas tropicais, segundo evidências encontradas em um abrigo rochoso no sul do México. Até agora achava-se que a origem dessas culturas agrícolas fosse a região do planalto semiárido.

No caso do milho, a descoberta recua em 1.100 anos os primeiros indícios de sua utilização - até agora datados de 7.600 anos atrás. E a data também é 2.500 anos mais antiga que o primeiro uso de milho no planalto mexicano.

O milho descende de um capim selvagem, o teosinto, que os antigos índios selecionaram artificialmente para produzir variedades melhoradas.

"Milho e também possivelmente a abóbora Cucurbita argyrosperma se juntam a um número crescente de plantas agrícolas importantes que se demonstrou terem sido cultivadas e domesticadas no México e na América do Sul entre 10.000 e 7.500 anos atrás, na mesma época em que a agricultura emergiu no Velho Mundo", escreveram os autores em um dos dois artigos sobre a descoberta publicados na última edição da revista científica "PNAS" (www.pnas.org).

Um dos artigos, cujo principal autor é Anthony Ranere, da Universidade Temple (EUA), trata da arqueologia do abrigo rochoso de Xihuatoxtla; o outro trata especificamente das evidências botânicas dessa alimentação pré-histórica: restos de amido e fitólitos (minerais microscópicos presentes em plantas), encontrados em ferramentas de pedra usadas na moagem dos grãos.

Ocultação de evidência - "Parece que os antigos agricultores que nós documentamos no vale do rio Balsas consumiam rotineiramente abóbora e milho domesticados, junto com outras plantas como palmeiras, inhames, legumes e provavelmente outros alimentos que não são tão visíveis no registro porque não produzem fitólitos e grãos de amido identificáveis, ou não eram processados antes de comidos", disse à Folha a principal autora do segundo artigo, Dolores Piperno, arqueobotânica do Museu Nacional de História, Natural, de Washington, e do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, do Panamá.

As pedras arredondadas usadas para moer as plantas podem parecer comuns para o olhar leigo, mas um arqueólogo logo reconhece sua função. "Pedras que foram usadas para a moagem adquirem padrões de gasto distintos", diz Piperno. E o fato de acharem o amido e os fitólitos nas faces gastas é a melhor prova.

É justamente a dificuldade de encontrar provas da agricultura nas regiões mais úmidas que fazia com que, até a década de 1990, se acreditasse que a domesticação das plantas tivesse acontecido nas regiões mais altas e secas, apesar de fazer mais sentido que isso tivesse acontecido em uma área com clima mais chuvoso e sazonal.

O milho pré-histórico tinha sido achado em cavernas do planalto porque o clima seco facilitava a preservação.

"Nosso objetivo principal era documentar a história antiga da domesticação do milho na terra natal do seu ancestral selvagem", afirma Ranere. E essa região, no sudoeste mexicano, era justamente uma área até agora pouco explorada.

A dificuldade de preservação fica clara quando se nota que não foram achados restos de fauna no abrigo. "Ossos animais frequentemente não se preservam bem em contextos tropicais", diz Piperno.

O teosinto pode parecer mais capim do que milho. Mas, como Piperno e colegas mostram, ainda hoje os mexicanos da região usam o teosinto para alimentar porcos e galinhas. A pesquisadora planeja vir ao Brasil investigar as origens da agricultura na Amazônia, em parceria com o arqueólogo Eduardo Neves, da USP.