Indústrias trocam defensivos por algodão para garantir vendas

01/04/2009

Indústrias trocam defensivos por algodão para garantir vendas

 


O prognóstico de queda na área plantada de algodão aumentou o volume de negócios entre a indústria de defensivos e os produtores tendo a fibra como moeda de troca. A modalidade ganha força em meio ao cenário de desaceleração da economia mundial e queda brusca nos preços da commodity, que colocou em risco a rentabilidade do produtor por causa da grande quantidade de insumos empregados na cultura. Preocupados em sustentar o volume de vendas, fabricantes de defensivos oferecem incentivos inéditos para atrair produtores, como pagamento balizado pelas bolsas internacionais sem nenhum desconto. A modalidade de escambo sempre foi praticada, porém representantes dos produtores afirmam que o sistema ganhou força no último ano por causa da crise. Além disso, a compra de defensivos é considerada como o principal gargalo na aquisição dos insumos de produção por causa dos altos custos e dificuldade de financiamento.

Haroldo Cunha, presidente da Associação Brasileira dos Produtos de Algodão (Abrapa), afirma que esse tipo de negócio tem ocorrido com mais frequência neste ano. Segundo disse, o sistema é recente e ajuda a minimizar alguns problemas. "O maior gargalo no cultivo de algodão está na aquisição dos defensivos. O custo é elevado e as linhas de financiamento são caras. Por isso, qualquer modalidade que facilite a aquisção desse insumo é bem recebida". No entanto, lembra que é preciso levar em consideração os preços praticados pela empresa. "Se estiver acima do mercado acaba anulando a vantagem".

Para João Carlos Jacobsen, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), estado que mais produz a fibra no País, a adesão a esse tipo de troca precisa ser analisado particularmente com muita cautela. "O produtor precisa ficar de olho nas variações das cotações, principalmente no dólar". Segundo disse, o sistema utilizado entre a indústria e os produtores é o contrato de compromisso com o volume. "O produtor recebe pelo preço de mercado na data da entrega", explica. Porém, lembra que se não houver reação do mercado o produtor precisa honrar o contrato e amargar o prejuízo. Para ele, o patamar ideal de remuneração é de 59 centavos de dólar a libra-peso (0,45 quilos).

Nos últimos nove meses, as cotações do algodão na Bolsa de Nova York recuaram 60%, para 47 centavos de dólar a libra-peso em março, conforme informações do Centro de Informações da Gazeta Mercantil. A expectativa de área plantada em 2009 reagiu aos baixos preços e recuou 20%, para 855 mil hectares, conforme informações da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Para as indústrias de fertilizantes, além de sustentar as vendas, a troca por algodão funciona como uma garantia de pagamento. José Roberto Da Ros, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), revela que os defensivos são o último item na lista de compra dos produtores. "A prioridade são as sementes e o adubo, o que consome todo recurso fornecido pelo crédito rural. O financiamento pelas empresas é a única alternativa". Segundo o sindicato, apenas 12% das vendas são feitas por meio de crédito rural.

"A troca também surge como uma forma de coibir a inadimplência, que cresceu no último ano", afirma Da Ros. Ele explica que os dados de 2008 ainda não estão disponíveis. Mas afirma que em 2007, o índice foi de 10%, para um montante de US$ 7 bilhões movimentados pelo setor. Segundo informou, á opção de troca é oferecida por várias empresas.

Fabricantes de defensivos como a FMC, oferecem vantagens inéditas para atrair o produtor. Os contratos fechados com a empresa usam como base os preços da Bolsa de Nova York na data da entrega física, eliminando algumas burocracias e o custo do frete. Segundo a assessoria da empresa, na primeira semana de campanha de troca foram fechados contratos para 15 mil toneladas de algodão da próxima safra. O objetivo da empresa é ampliar esse sistema para outras culturas, como café, soja e milho.

A expectativa de alguns analistas é que os preços do algodão recuperem parte das perdas no segundo semestre. Portanto, o momento é de espera. "O algodão costuma recuperar preço rapidamente após retração da oferta. A tendência é que no segundo semestre a fibra se recupere rapidamente". Por enquanto, o analista sugere cautela no fechamento de contratos. "O momento é para compra e não venda".