O milagre dos peixes

08/04/2009

O milagre dos peixes

 

 

Chegamos à Semana Santa e, invariavelmente, o assunto do preço do peixe vem à tona. Os consumidores se queixam de que em poucos dias o valor do quilo do pescado salta a patamares estratosféricos, obrigando as donas-de-casa a buscarem peixes importados e de qualidade infer ior.

É oportuno que se esclareçam certas questões, tirando o pescador da lista de vilões. O pescador não é o responsável pelos altos custos dos insumos levados a bordo e não tem como controlar a diminuição da oferta. Quem forma o preço ao consumidor, portanto, são os custos de produção e o mercado.

A Bahia produz cerca de 80 mil toneladas de pescados por ano, e o consumo é em torno de 150 mil toneladas, o que gera umdéficit aproximado de 70 mil toneladas. Mas não é isso que causa a carestia. Não se justifica, em princípio, que um Estado com quase 1.200 quilômetros de litoral produza menos que Santa Catarina, que tem apenas 400 quilômetros de faixa litorânea.

Existem razões lógicas, e uma delas é a falta de terminais pesqueiros.

Enquanto Santa Catarina possui 11 terminais, a Bahia não tem nenhum. Terminal pesqueiro não é só um ponto de atracação, mas uma estrutura complexa de apoio ao desembarque, recepção, beneficiamento e comercialização.

E é por causa disso que o governo do Estado, através da Bahia Pesca, em conjunto com o governo federal, já se movimenta para construir os terminais de Salvador e Ilhéus.

A outra questão foge ao nosso controle. O encontro das correntes frias da Patagônia com as correntes quentes beneficia a produção de alimentos para os peixes, ajudando a desenvolver grandes cardumes no Sul do País, como os de corvina, bonito-listrado e sardinha-verdadeira.

Peixes de qualidade inferior, mas pescados em grande quantidade e, assim, mais baratos, o que favorece o consumidor.

Os peixes do litoral do Nordeste são considerados nobres, a exemplo do badejo, do beijupirá, da pescada, dentre outros. Possuem carne saborosa, são mais procurados e, por consequência, mais caros. A única forma de diminuirmos essa dependência dos pescados do Sul do País é o aumento dos criatórios de tilápias. A tilápia, injustamente considerada um peixe de qualidade inferior, é, ao contrário, excelente, especialmente quando criada em água salgada.

Carne branca e saborosa, as tilápias são criadas em tanques-rede com custo reduzido e grande produtividade e competitividade.

Entre 1990 e 2006, a produção da aquicultura cresceu 540%, já representando, no Brasil, cerca de 30% da produção. É a tilápia ganhando mercado. Com uma costa de 1.187 km de extensão, 500 mil hectares em águas represadas, além do clima quente favorável à engorda dos pescados, a Bahia possui um enorme potencial para o desenvolvimento da aquicultura. Será o milagre dos peixes?

ISAAC ALBAGLI
Engenheiro agrônomo, presidente da Bahia Pesca S/A