Ocupação na Seagri tem apoio da Comissão Pastoral da Terra
Apesar das tentativas de negociação do governo, os centenas de sem-terra do Movimento dos Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas do Estado (Ceta) radicalizaram o discurso e prometem sair de dentro do prédio da Secretaria de Agricultura do Estado (Seagri), somente depois que forem recebidos pelo governador Jaques Wagner. Os manifestantes continuam espalhados pelos três andares do órgão e tem o apoio de entidades, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Igreja Católica e o Centro de Estudos e Ação Social (Ceas), grupo fundado a 40 anos, que na Bahia colaborou na política de redemocratização do país. Ontem os integrantes do Movimento colocaram faixas com frase de protesto, em que cobram do governo o cumprimento dos acordos realizados em 2007. A manifestação dos sem-terra na Seagri, aliada a paralisação dos servidores da saúde em frente a Sesab e a Marcha dos prefeitos movimentou o Centro Administrativo da Bahia (CAB) na manhã de ontem.
Além de reivindicarem o assentamento de três mil famílias no Estado, os sem-terra pedem a reforma e a construção de mil casas, a construção de estradas, assistência técnica no campo, eletrificação e abastecimento de água nos assentamentos.
"Não queremos mais conversa com os secretários. O nosso objetivo é falar com ele (o governador), pois em 2007 ele assinou o acordo, concordou com os nossos pedidos e acabou não cumprindo", disse em tom de indignação, Maria Lúcia, enquanto balançava uma bandeira em frente ao prédio. Ela divide um acampamento com 62 famílias em Feira de Santana.
"Será que ele esqueceu que já andou lado a lado conosco", questionou a trabalhadora rural, Joana, que não quis identificar o nome completo. "O que está fazendo é engavetando as nossas reivindicações. Não é possível que ele seja igual aos outros (governo anterior)", acrescentou.
O secretário de agricultura, Roberto Muniz iniciou a conversa com o grupo na segunda-feira, mas diante da insistência do Movimento em manter contato com o governador Jaques Wagner, passou as questões para a Secretaria de Relações Institucionais (Serin), comandada por Rui Costa. O gestor da Seagri ofereceu infraestrutura com a implantação de toldos, banheiros químicos e caixas d’água.
De acordo com uma das líderes do Movimento, Nólia Oliveira, o gestor da Serin pediu como condição de avanço, a saída dos sem-terra de dentro do prédio, "mas a posição do Ceta é a de permanecer. Só vamos sair daqui quando tivermos algo concreto".
Segundo Nólia, durante as gestões estadual e federal não avançaram a reforma agrária no país. "Os recursos da agricultura familiar estão contingenciados, enquanto milhões estão indo para o agronegócio. De forma pontual houve algumas melhorias, mas no geral nossas reivindicações estão esquecidas. Tem sido a mesma coisa de antes", exaltou.
Em uma das faixas, o Ceta exibe o protesto contra a redução nos recursos do Programa Nacional de Educação em Reforma Agrária (Pronera). "A educação no campo não aceita cortes no Pronera (68%)". De acordo com a coordenadora do Movimento, há seis meses os quatro cursos que já estavam em fase de conclusão não estão funcionando por falta de pagamento aos professores e ausência de condições nos alojamentos. Os cursos ficam nos campus da Uneb de Bom Jesus da Lapa, Barreiras, Itaberaba e Bonfim.