O desafio do combate à gripe aviária
Em pouco mais de quatro meses, várias cidades do interior paulista recebem a prosaica visita anual das andorinhas azuis. Porém, neste ano, com os furacões nos EUA, os pássaros alteraram sua rota e, portanto, as fontes alimentares. Embora essa ave não se contamine, é possível que transporte o letal H5N1 para a América do Sul. E não é o único meio de contágio da temida gripe aviária. Até o promissor comércio ilegal de galos de briga, por exemplo, pode representar séria ameaça para o País.
Especialistas brasileiros procuram evitar previsões apocalípticas sobre a epidemia, mas não escondem que o risco de contágio existe. Essa é a preocupação: o Brasil está preparado para todas as ameaças, diretas e indiretas, dessa epidemia? A principal responsável na Agência de Saúde da Organização das Nações Unidas para a gripe aviária, Margareth Chan, alertou, na semana passada, que este vírus representa o "maior desafio" já enfrentado pelo mundo em doenças infecciosas.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) está bem preocupada com a aceleração da propagação da doença: no último mês, 17 países foram infectados, indício óbvio de que o ritmo de contágio da epidemia mudou. A doutora Chan não usou meias palavras: "Ninguém sabe quando isso vai parar". Por essa razão, a OMS deverá, em mais alguns dias, apresentar plano mundial de defesa para o caso da situação evoluir para a pandemia da temida gripe das aves.
O custo de qualquer despreparo nessa questão pode ser muito alto. A doença está atingindo animais em mais de 30 países e já custou US$ 10 bilhões aos países afetados. No momento, a maior preocupação da OMS e da comunidade científica internacional é impedir que o vírus H5N1 sofra mutação e passe a contaminar humanos. O grau dessa ameaça pode ser avaliado pelo fato de que os 174 registros de contágios entre seres humanos por esse vírus provocaram 94 mortes, um índice de morbidade muito forte para esta forma de epidemia infecciosa. Por enquanto, a quantificação dos prejuízos limitou-se à economia. E eles são muito altos.
No Brasil, toda a cadeia produtiva vinculada ao frango já está sentindo os prejuízos da epidemia. As exportações recuaram e, naturalmente, os estoques aumentaram, derrubando as cotações internas do produto. Os exportadores sabem que o quadro deve piorar nas próximas semanas e já reconhecem que a única saída é a redução da produção. Os números totalizados de fevereiro mostram que as 199,6 mil toneladas de exportações de frango já são 7,8% menores que as de janeiro de 2005. Os exportadores já calculam em cerca de um quarto da média mensal a perda nas exportações de frango pelo recuo de consumo, em especial na Europa.
Os preços caíram reagindo ao acúmulo de oferta. A tonelada do peito de frango já está arranhando os US$ 1.000, bem abaixo do valor médio do último trimestre do ano passado, que atingiu US$ 1.800, já com o custo do frete. O preço médio do primeiro semestre de 2005 para o mesmo produto era de US$ 2.800 por tonelada. Há dificuldades adicionais, porque os contratos de exportação com prazos mais longos não estão sendo renovados. No mercado interno, o consumidor já compra o frango com embalagem em árabe e preço até 30% menor do que na semana anterior, óbvio sinal do tamanho do estoque exportador retido.
O Ministério da Agricultura promete um plano de contingência. Em dois meses o País contará com seis laboratórios para diagnosticar com rapidez de três horas o vírus H5N1. Por enquanto, apenas o laboratório de Campinas tem o equipamento exigido para esse diagnóstico, por reconhecimento de DNA do vírus. É um cuidado importante, mas talvez ainda insuficiente.
O técnico Mike Ryan, da OMS, advertiu que uma pandemia de gripe aviária provocaria um "colapso" no sistema, porque "a maioria dos países ainda não está preparada para o pior". Em especial, se o vírus sofrer mutação e passar a contaminar humanos. Nesta hipótese, o papel e o preparo dos governos deverão ser bem maiores. O Estado brasileiro não pode postergar responsabilidades em quadro como este.