Embargo da UE deixa apicultores sem mercado
Europa compra US$ 18 milhões por ano, 70% da produção; Brasil não tem como absorver excedente. O embargo da União Européia ao mel brasileiro, em vigor a partir de hoje, já começa a apresentar reflexos negativos para os produtores do Piauí. As empresas que compram a produção de pequenos apicultores, cerca de 90% do universo de 25 mil, suspenderam a compra do produto.
A decisão da comunidade européia em suspender a importação de mel produzido no Brasil tem como alegação o fato de o governo brasileiro não ter apresentado o Plano Nacional de Controle de Resíduos Sólidos (PNCR), exigido pelo Escritório Veterinário de Alimentos da União Européia (FVO) desde 1999.
A Melnor Wenzel deixou de compra mel dos apicultores do Estado - cerca de 400 cadastrados e outros sem cadastro. A empresa piauiense este ano preparava-se para exportar mil toneladas de mel à Europa. "Isso é uma catástrofe. Não podia acontecer", lamenta o gerente, Thiago Gama de Oliveira.
A falta de foco do governo brasileiros ao controle de resíduos exigidos pela UE agora vai fazer o Brasil sofrer, na avaliação de Oliveira, derrubando todo um trabalho realizado ao dos últimos anos para trabalhar as vendas de mel para o mercado europeu.
"O Ministério da Agricultura, as instituições financeiras e prefeituras fizeram todo um trabalho de incentivo à produção, mas faltou a preocupação do governo ao controle de resíduo", afirma referindo-se à elaboração do plano. "Com o embargo, quem faz da apicultura uma profissão vai sofrer", prevê.
A Floramel, o maior exportador do Piauí, informa que reduziu para 10% a compra de mel no Estado, dando preferência aos pequenos apicultores (95% dos 1.360 cadastrados). A empresa tem a perspectiva de atender em breve a um pedido grande de um importador norte-americano. "Sabemos das dificuldades do pequeno produtor e, por isso, estamos dando atenção a eles", observa o gerente da empresa, Paulo Henrique Miranda. Das 1.235 toneladas exportadas no ano passado pela Floramel, 930 toneladas seguiram para a Europa. Este ano, previa um incremento de 30% nas exportações para o mercado europeu. "Agora vamos ter que correr para o mercado americano, que pode ser a nossa única opção, mesmo que o preço fique abaixo do mercado."
Semestre perdido
O primeiro semestre, para Miranda, já está perdido para os exportadores brasileiros. Segundo ele, o Brasil precisa de pelo menos três meses para executar o plano de controle de resíduos e defender junto à comunidade européia. Se o ministério da agricultura for ágil, segundo afirma, talvez no segundo semestre seja possível voltar a exportar para a Europa.
Oliveira, gerente da Melnor, não está nada otimista. "Temos que pensar em saídas, mas elas vão ser de longo prazo. Não se conquista um mercado novo da noite para o dia", diz. O sócio da Melnor e da Cearapi, no Ceará, Paulo Levy, também prevê um futuro com a comunidade européia cada vez mais distante.
"A informação que temos do serviço de vigilância sanitária da comunidade européia é de que não voltariam atrás na decisão até dezembro", conta. A Cearapi também suspendeu a compra de mel de pequenos produtores desde a última terça-feira. Cerca de 90% dos fornecedores são pequenos apicultores.
Para Levy, o impacto do embargo no setor apícola brasileiro vai ser muito grande. "A Europa compra cerca de 70% da produção nacional. Os produtores brasileiros estão sem mercado", avalia. É difícil avaliar os prejuízos, segundo o empresário. As perdas, segundo ele, não são apenas o valor das exportações - cerca de 10 mil toneladas com uma receita de US$ 18 milhões. "O prejuízo maior é a perda da nossa clientela. Eles disseram que se houvesse embargo, não voltariam mais", diz.
Na avaliação do presidente da Federação das Entidades Apicultoras do Piauí, Antônio Leopoldino, os apicultores estão na "rua da amargura". A única solução, segundo Leopoldino, é lutar para refazer o mercado interno, que ficou abandonado com as exportações. "Agora vai ser uma luta para reativar o mercado interno", avalia o presidente da entidade, ressaltando que o empresariado brasileiro também que se organizar melhor e que todos têm que fazer sua parte, governo e apicultores.
Dos US$ 18 milhões, prejuízo estimado com o embargo do mel, o Ceará e o Piauí, que junto com São Paulo encabeçam a lista dos maiores exportadores para a Europa, perderiam em torno de US$ 6,6 milhões. O prejuízo é grande, com reflexo, principalmente para o pequeno produtor - alguns ganham em média um a três salários mínimos por mês. O mercado nacional, segundo os empresários, não tem como absorver a produção. O consumo ainda é muito pequeno, em média 60 gramas percapita por ano.
O Brasil possui atualmente cerca de 350 mil apicultores, de acordo com a Confederação Brasileira de Apicultores. O maior número está nas regiões Norte e Nordeste, porém, a maior concentração de colméias fica na região Sul. O Brasil exportou ano passado 14,4 mil toneladas de mel, alcançando uma receita de US$ 14,9 milhões. O mel exportado rendeu aos Estados de São Paulo, US$ 7,72 milhões; ao Ceará, US$ 3,4 milhões e, ao Piauí, US$ 3,05 milhões.
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informa que vai prestar novos esclarecimentos à Direção de Saúde e Proteção do Consumidor da UE, com o detalhamento das ações de fiscalização e controle de resíduos no mel. O Mapa ainda quer convencer a UE a voltar atrás na decisão, sob o argumento de que PNCR de 2006 inclui o monitoramento do mel, com análises de 19.613 amostras.
kicker: Empresas, como a Floramel, vão tentar vender produção que era destina à Europa para o mercado norte-americano
(Gazeta Mercantil/Gazeta do Brasil - Pág. 14)(Franci Monteles)