Campo muda perfil de investimento
A priorização dada ao agronegócio pelo governo em detrimento da agricultura familiar e reforma agrária não é, atualmente, a mesma de 2003. A análise das variações nos repasses do governo para as duas áreas ano a ano revela um cenário distinto do que aquele desenhado pelo balanço geral desses seis anos e quatro meses de governo Lula: ao ampliar o volume de repasses para a agricultura familiar e reforma agrária num ritmo maior do que o do agronegócio, o governo gradualmente vem alterando o perfil de investimentos públicos no campo.
Em 2005, somados os repasses do Ministério da Agricultura e as operações de crédito subsidiadas de Banco do Brasil e BNDES, o agronegócio recebeu R$ 21,51 bilhões em recursos públicos. Em 2008, esse valor foi de R$ 24,9 bilhões, o que significou um crescimento de 15,76% dos aportes anuais. No mesmo período, o salto dos recursos direcionados para a agricultura familiar e reforma agrária foi maior, de 26,93%, saindo dos R$ 7,09 bilhões, entre repasses do Ministério do Desenvolvimento Agrário e operações de crédito do Banco do Brasil e do BNDES, em 2005, para os R$ 9 bilhões de 2008.
No Banco do Brasil, a diferença nas evoluções dos repasses é ainda maior. Na safra que se encerrou em 2005, a instituição destinou R$ 4,23 bilhões em crédito para a agricultura familiar. Em 2008, foram R$ 7,84 bilhões, um crescimento de 85,3% em relação a quatro anos antes. No mesmo período, o crescimento dos recursos direcionados ao agronegócio foi de apenas 4,23%, saindo de um patamar de R$ 19,34 bilhões para os R$ 20,16 bilhões emprestados no ano passado.
– A tendência é de que os créditos para a agricultura familiar aumentem mais do que os do agronegócio, porque, enquanto o empreedimento maior pode estar chegando aos seus limites, a agricultura familiar tem absorvido cada vez mais tecnologia, explorando cada vez mais o cooperativismo, o associativismo, recebendo melhor assistência técnica para se desenvolver, fatores que darão condições a ela de obter ainda mais acesso ao crédito – explica o diretor de Agronegócios do Banco do Brasil, José Carlos Vaz.
Outro fator que contribui para que a agricultura familiar absorva uma fatia cada vez maior do crédito do banco é a própria regulamentação que rege a concessão de empréstimos para a produção rural. Segundo José Carlos Vaz, enquanto a instituição pode financiar de 80% a até 100% das necessidades de plantio dos empreendimentos de pequeno porte, fica limitada a um percentual de 30% a 40% para o agronegócio empresarial de grande porte. Os clientes da agricultura familiar já superam, e muito, em número, os do agronegócio: o Banco do Brasil estima atender hoje com sua carteira de crédito cerca de 1,5 milhão de pequenos clientes que trabalham com a agricultura familiar, contra 300 mil clientes do agronegócio.
Fonte:
Jornal do Brasil