Ovelha e cabra: couro bem tratado
Não só carne, leite ou lã dão lucro ao criador. Couro de qualidade também pode render bem
Fernanda Yoneya
Uma fonte extra de renda para o criador de cabras e ovelhas é a venda do couro desses animais, desde que seja um produto bem tratado e manipulado. Segundo o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), US$ 1 bilhão/ano são perdidos por danos provocados por defeitos nos couros produzidos no País. Assim, é preciso informar o criador, difundindo técnicas que o ajudem a reduzir perdas.
Para o consultor técnico do Programa Brasileiro da Qualidade do Couro (PBQC), Célio José Batista, a desqualificação do couro de caprinos e ovinos é muito grande e tem como principal causa questões ligadas ao manejo incorreto do plantel, como marcação a fogo, cercas de arame farpado, transporte inadequado e pastos sujos e mal cuidados. "O que falta é manejo que privilegie o bem-estar animal", diz Batista, que debateu o tema na Feira Internacional de Caprinos e Ovinos (Feinco), encerrada sábado, na capital.
BEM-ESTAR
Segundo Batista, o criador que quiser obter um couro de boa qualidade deverá dar prioridade ao bem-estar animal, que inclui boa alimentação, boas condições sanitárias e acompanhamento veterinário. "Pastos sujos e manejo inadequado refletem não só na qualidade do couro, mas na da carne e na do leite." No pasto, deve-se manter o alimento ao alcance dos animais. Outra dica é manter a criação limpa e com a lã aparada. "Em criações soltas, o ambiente também deve ser limpo."
O programa orienta criadores sobre a importância de bons tratos nas principais fases do animal: acasalamento, gestação, nascimento, alimentação, transporte, abate e retirada da pele, que terão influência direta na qualidade do couro.
A conservação é outra etapa crucial. O primeiro cuidado é com a retirada da pele, que deve ser simétrica - fazer cortes aleatórios, além de tirar a uniformidade da produção, deprecia o produto no mercado, que compra o couro por quilo e o vende por metro. "A retirada deve ser padronizada, feita por especialistas (magarefes), que sabem como não furar o couro ou provocar danos." Após a retirada da pele, é hora de conservá-la antes de mandá-la ao curtume. Aqui, há duas opções: enviar a pele verde ou despachá-la após salgá-la na propriedade.
A primeira opção, mais prática, é vender a pele logo após o abate. "A pele verde deve ser transportada em veículos refrigerados, que reduzem os riscos de apodrecimento."
A outra opção, mais trabalhosa, inclui o processo de salga: lava-se a pele até tirar todo o sangue; depois de escorrido o excesso de água, a pele é colocada com a face do pêlo virada para baixo. Salgadas, elas são empilhadas, sempre juntando parte interna com a parte interna e face do pêlo com face do pêlo. "As pilhas, após 25 dias em local coberto e ventilado, são mandadas ao curtume."
TEMPERATURA
Ao empilhar as peles, é vital monitorar constantemente a temperatura, pois o aquecimento favorece o surgimento de bactérias, que danificam o couro. Durante os 25 dias, são feitas verificações diárias com um termômetro; se a temperatura passar de 28 graus e houver peles atingidas, seu descarte deve ser imediato e a salga no restante da pilha reforçada. "O processo de salga, embora mais comum, é menos recomendável, pois exige mais em termos de curtimento (produtos químicos). A pele verde é mais ecológica", compara Batista.
SAIBA MAIS: PBQC, tel. (0--34) 3236-0299