Como sobreviver plantando grãos

23/03/2006

Como sobreviver plantando grãos

Produtores buscam alternativas para se manter na soja, sem abandonar tecnologia

Niza Souza

Os baixos preços da soja e o câmbio desfavorável para exportação não tiram o bom humor do agricultor Jônadan Hsuan Min Ma, da Fazenda Boa Fé, em Uberaba (MG). Min Ma planta soja - sua principal cultura -; cria gado de leite e de corte; planta cana; adota práticas de manejo sustentável e ainda tem uma agroindústria, na qual fabrica produtos à base de soja. O produtor define o sucesso da fazenda em três palavras: diversificação, integração e verticalização. "É o caminho para se manter na crise."

A atual crise por que vem passando a agricultura vem exigindo paciência e criatividade. Economia de insumos; redução da área plantada; investimento em outras culturas; estocagem da produção e novas formas de comercialização estão entre as alternativas utilizadas pelos produtores, com um ponto em comum: ninguém abandonou o uso de tecnologia.

VERANICO E FERRUGEM

Nesta safra, Min Ma plantou 800 hectares de soja e 400 de milho. Um veranico em janeiro, com 15 dias sem chuva, e a ferrugem, que atacou mais cedo este ano, fizeram com que a produtividade ficasse abaixo da expectativa. "Calculo quebra de 15% na produção", diz Min Ma. A estimativa é a de que a produtividade fique em torno de 45 sacas por hectare, prejuízo na certa. "Considerando o preço da soja em R$ 23 a saca (uma cotação otimista), o custo de produção seria de 57 sacas/hectare." Prejuízo de 12 sacas/hectare.

A perda com a soja ele pretende tirar, porém, de outras atividades, daí a importância da diversificação. A boa notícia nesta safra, diz Min Ma, veio com o milho. Apesar de também estar com preços baixos, a produção será suficiente para pagar as custos. Pelos seus cálculos, o custo ficará em 110 sacas por hectare e a produtividade média será de 160 sacas/hectare. "O único problema é que o milho não tem liquidez, como a soja."

Além do milho, Min Ma produz soja para semente, que tem maior valor de mercado, e cana-de-açúcar, que também deve segurar o prejuízo com a soja. "Na nossa indústria, produzimos soja em grão, farinha e cookies de soja. Isso agrega valor."

TECNOLOGIA

O agricultor Igor de Souza Cândido, de Morrinhos (GO), planta 1.100 hectares, sendo 80% de soja e o restante de milho, e vai usar a tecnologia a seu favor nesta crise. "Nem na crise devemos deixar a tecnologia de lado. Este ano, fizemos até mais investimentos no campo, como aplicação de gesso no solo, para melhorar a produtividade." Para equilibrar gastos, a tática foi negociar o preço dos insumos com as empresas. "Trocamos adubo por sacas de soja", diz. "Fiz o acordo quando a saca de soja estava cotada em R$ 25. Hoje está em R$ 21, mas, como o acerto foi em números de sacas, não tive prejuízo", diz. "É melhor do que não adubar; para recuperar isso depois demora muito."

ANÁLISE DE SOLO

Na Fazenda Samambaia, também em Morrinhos (GO), uma análise de solo mais detalhada foi essencial nesta safra. O gerente da fazenda, Edson Matias de Souza, diz que economizou 30% de adubo. "Fizemos a análise para saber em que áreas poderíamos reduzir a aplicação", conta Souza. O gasto com a análise foi de R$ 12 mil. A economia com o adubo foi de R$ 50 mil. Souza reduziu, também, o número de funcionários de 18 para 6. Para ele, "reduzir tecnologia é o que não dá para fazer". Este ano, fará três aplicações contra a ferrugem. O custo adicional com herbicidas será compensado com economia em outras áreas. "Se não, não daria para fechar as contas." Por enquanto, o produtor diz que a idéia é armazenar e esperar um momento melhor para vender.

O gerente da Fazenda Pausa, Francisco Lourenzoni, em Paracatu (MG), que tem 2.300 hectares de área plantada de grãos (1.900 de soja e o restante de milho), também vai armazenar soja este ano, à espera de uma reação. Com a crise, diz Lourenzoni, foi preciso deixar de investir em algumas tecnologias, mas não no campo. "Só em infra-estrutura", diz. O projeto de construção de galpões está parado, assim como o invesimento em maquinário. "Na lavoura, não podemos deixar de investir. Se com tecnologia está difícil, imagine se a gente largar."

Viagem a convite da Agroconsult para cobrir o Rally da Safra (www.rallydasafra.com.br)