Mão-de-obra e insumo importado garantem lucro na exportação
Raquel Landim e Sergio Lamucci
Tristeza de uns, alegria de outros. O velho ditado popular reflete os distintos impactos do dólar barato nos setores exportadores da economia brasileira. Enquanto fabricantes de remédios e celulares aproveitam a redução de custos e planejam exportar mais, empresas de roupas, calçadistas e autopeças fazem as contas do prejuízo.
Variáveis microeconômicas explicam por que o câmbio afeta as empresas de forma diferente. Primeiro, a quantidade de insumos importados na composição das mercadorias. Segundo, o peso da mão-de-obra versus o nível de utilização de tecnologia em cada setor. Terceiro, as vantagens tributárias. A atual legislação de PIS/Cofins favorece as empresas que agregam pouco valor aos produtos.
"Quem importa bastante e é intensivo em capital, e não em trabalho, consegue agüentar mais as conseqüências do câmbio valorizado", diz o economista-chefe da
Bráulio Borges, da
Exemplo típico são as companhias do segmento de eletroeletrônicos, principalmente celulares. O coeficiente de insumos importados nesse produto chega até a 90%. Segundo Borges, o Brasil é praticamente um "montador" de produtos eletroeletrônicos, fabricando pouca coisa aqui. A indústria farmacêutica também não tem problemas com o dólar barato, diz Borges, até porque exporta pouco.
Em 2005, o setor de equipamentos eletroeletrônicos aumentou em 104% a quantidade exportada, apesar da queda de 10% no preço e de 28,1% na rentabilidade das exportações. Mas os custos desse setor cresceram apenas 3,6%, segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). O desempenho do setor de madeira e mobiliário foi diferente. A quantidade exportada caiu 5,2% no ano, apesar da alta de 6,7% nos preços. A rentabilidade das exportações desse setor caiu 17,8% e os custos subiram 8,3%.
"Para a indústria farmacêutica, o câmbio atual é positivo, porque trata-se de um setor importador", explica Nelson Mussolini, diretor-corporativo da
Em 2005, a Novartis exportou R$ 40 milhões e importou R$ 510 milhões. Mas a empresa faz planos ambiciosos de "zerar essa conta" até 2010, diz o executivo. Para isso, está investindo R$ 150 milhões para transformar sua fábrica, em Taboão da Serra (SP), em plataforma de exportação de medicamentos genéricos. "Um investimento desse vulto não considera o câmbio como fator primordial. O Brasil possui estabilidade interna, que é o mais importante para atrair capital", afirma Mussolini.
A
A
Os setores que sentem menos os efeitos negativos do câmbio também são os que menos contribuem para o superávit no comércio exterior. O setor eletroeletrônico encerrou 2005 com saldo negativo de US$ 7,4 bilhões, depois de importar US$ 15,1 bilhões. Já no setor farmacêutico, o déficit ficou em US$ 1,5 bilhão, para o que contribuiu a baixa exportação do setor.
No outro extremo da produção, estão as empresas que compram poucos insumos do exterior e usam mão-de-obra intensiva, como calçadistas e móveis. Como importam pouco, não conseguem compensar parte da perda de rentabilidade nas exportações com uma queda nos custos de produção, afirma Thaís Marzola Zara, da
Estes setores, ao contrário dos importadores líquidos, ajudam muito o saldo comercial. O segmento de madeira e mobiliário teve superávit de US$ 2,5 bilhões em 2005 e o calçados contribuiu com US$ 1,8 bilhão, já descontadas as importações do segmento.
No setor têxtil, a mão-de-obra é intensiva na confecção, mas não em tecelagem. Mas todo o setor importa pouco e, por isso, sofre com o dólar barato. Para piorar, as companhias têxteis e calçadistas têm como maiores concorrentes as empresas chinesas, que levam vantagem tanto no câmbio desvalorizado, quanto nos baixos salários.
Segundo Thaís, nesse cenário é inevitável que as empresas procurem aumentar as importações, trocando fornecedores locais por estrangeiros. Companhias que decidiram comprar uma nova máquina para ampliar a capacidade de produção têm recorrido com mais freqüência à importação de bens de capital, avalia Thaís. Nos 12 meses terminados em janeiro, por exemplo, a produção doméstica de bens de capital aumentou apenas 3,6%, enquanto as compras externas cresceram 14,6%.
Borges, da LCA Consultores, diz que, no setor automotivo, as companhias encontraram uma forma de atenuar o problema: elevar a exportação de carros desmontados (CKD). O objetivo é reduzir o impacto do peso da mão-de-obra sobre o produto. Números da Anfavea, a associação das montadoras, mostram que, em fevereiro, as vendas externas de veículos desmontados cresceram 25,7% em relação a janeiro. No mesmo período, os embarques de carros montados aumentaram 18,9%. No primeiro bimestre, as exportações de CKD avançaram 12,8% ante igual período de 2005, pouco acima dos 10,5% das vendas de carros montados.
A