Endividados, citricultores discutem opções de renda
Representantes de quase 30 sindicatos rurais de municípios paulistas que têm na laranja uma importante fonte de renda se reuniram ontem na sede da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), na capital, para discutir a viabilidade de se adotar para a fruta uma política de preços mínimos em tempos de demanda retraída e remuneração em queda
A reunião contou com a participação de membros do Ministério da Agricultura e da Secretaria da Agricultura estadual, mas as conclusões do debate que tomou boa parte da manhã foram desanimadoras. Como depois diagnosticou Marco Antonio dos Santos, presidente do Sindicato Rural de Taquaritinga e coordenador da mesa de citricultura da Faesp, os mecanismos à disposição, relativamente eficazes para culturas como grãos, café e mesmo a cana, esbarram, na laranja, na perenidade da cultura e na forte concentração do lado comprador, dominado por quatro grandes indústrias (Cutrale, Citrosuco, Citrovita e Louis Dreyfus).
"Não é impossível, mas de fato o estabelecimento de uma política nesse sentido é difícil", afirmou Santos ao Valor. O assunto ainda será exaustivamente estudado, mas o dirigente sabe que sem a participação das indústrias nada vai acontecer. E fontes graduadas do segmento informaram que as empresas não têm interesse em uma política nesse sentido, porque produzem boa parte da fruta que demandam e também devido à base de informações que teriam de fornecer a governo e produtores de laranja para torná-la viável.
Enquanto isso, para boa parte dos citricultores paulistas a água continua subindo. Devido aos necessários cuidados para evitar a doença conhecida como greening e à elevação de insumos nos últimos dois anos (hoje esses preços estão em queda), os custos de produção superam R$ 10. Para produtores que têm contratos de fornecimento de longo prazo com as indústrias (cerca de 50% da safra que começou a ser colhida não está contratada), os compromissos variam de US$ 3 a US$ 4,50 por caixa de 40,8 quilos, conforme a Faesp. Quem quiser negociar no mercado spot, receberá, hoje, menos de R$ 4, de acordo com o Cepea/Esalq.
Os preços baixos vêm colaborando para elevar o endividamento dos citricultores paulistas, segundo cálculos de Cláudio Silveira Brisolara, chefe do departamento econômico da Faesp, baseados em dados de crédito rural oferecidos nas linhas com juros subsidiados do governo.
Em 2006, lembra Brisolara, os financiamentos para custeio e investimentos ligados à laranja somaram cerca de R$ 500 milhões no país (São Paulo representa cerca de 80% da produção nacional de laranja), sendo R$ 62 milhões para investimentos. Em 2007, foram R$ 627 milhões no total, R$ 83 milhões dos quais para investimentos, e em 2008 o valor atingiu R$ 677 milhões, mas apenas R$ 71 milhões para investimentos. Se o valor total está aumentando e os investimentos estão diminuindo, sustenta a Faesp, isso significa que parte do crédito está sendo usada para rolar dívidas.
A conjuntura adversa da citricultura vem tomando boa parte da agenda do secretário da Agricultura de São Paulo, João Sampaio. E suas palestras e reuniões, disse ele ao Valor, têm sido pautadas por uma dose de realismo por vezes mal recebido. As ações da secretaria têm se concentrado nas precauções fitossanitárias que o greening exige, e no que se refere ao mercado ele concorda que preços mínimos não resolverão. "A citricultura terá de se reinventar, com menos dependência das indústrias exportadoras e maior desenvolvimento do mercado interno". A inclusão de sucos naturais na merenda escolar paulista, alvo de um projeto de lei, é uma opção, mas há outras em estudo. De acordo com Sampaio, iniciativas de produção de suco pelos citricultores para venda em outros Estados do país poderiam render frutos menos azedos.