E a crise dos grãos ainda pode piorar

08/05/2006

E a crise dos grãos ainda pode piorar

Cibelle Bouças

A crise de rentabilidade dos grãos pode ainda não ter atingido o seu pior momento. Produtores, analistas e representantes do governo federal prevêem para a safra 2006/07, que começa a ser plantada em setembro, um agravamento da crise de rentabilidade que atinge o setor desde o ano passado. Para a maioria deles, o aumento do nível de endividamento do setor, estimado em R$ 30 bilhões, e a queda da receita - por conta de preços internacionais baixos, câmbio desfavorável e aumento dos custos de produção - devem levar os produtores de grãos a reduzir a área plantada em até 10% no próximo ciclo.

O ministro da Agricultura Roberto Rodrigues prevê uma redução de 6 milhões de hectares na área plantada com grãos na próxima safra. Na atual, foram semeados 42 milhões de hectares. O recuo, segundo o ministro, significará uma queda na produção de grãos próxima a 24 milhões de toneladas. Com isso, a safra brasileira deve registrar o seu pior resultado nos últimos cinco anos. Na quarta-feira, a Conab estimou uma produção de 121,07 milhões de toneladas no ciclo 2005/06.

"Teremos redução de área e uma evidente redução de tecnologia no campo. Seguramente teremos o ano que vem a pior safra dos últimos cinco anos. Se somada a próxima safra com as duas últimas, a perda na produção de grãos chega a 50 milhões de toneladas", afirmou o ministro durante o seminário "Perspectivas para o Agribusiness em 2006 e 2007", realizado ontem (dia 4) em São Paulo.

Segundo Rodrigues, o governo prepara medidas emergenciais e estruturais para ajudar o setor a superar a crise. Entre as medidas, está a prorrogação de dívidas num total de R$ 16 bilhões - incluindo os R$ 7,2 bilhões anunciados em abril, R$ 2 bilhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) já anunciados e a destinação de 25% a 30% dos recursos de comercialização (R$ 26 bilhões) desta safra para prorrogação de dívidas. "Com isso, praticamente metade das dívidas dos produtores será prorrogada por um ano, dando um fôlego para o plantio da próxima safra", disse.

De acordo com Ivan Wedekin, secretário de política agrícola do ministério, o governo prepara outras medidas para auxiliar o setor, como a redução de tributos para desonerar as exportações e redução dos juros para crédito agrícola na próxima safra. Ele disse, ainda, que o ministério solicita à União recursos superiores aos da última safra, quando foram destinados R$ 44,35 bilhões ao custeio e comercialização e investimentos.

Enquanto os efeitos das medidas emergenciais não aparecem, produtores seguem protestando contra a crise e bloqueando estradas, principalmente no Centro-Oeste do país. Os bloqueios já começam a afetar o dia-a-dia das esmagadoras de soja, de acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), Carlo Lovatelli.

Segundo ele, como não há entrega de soja, há fábricas paralisadas em regiões do Mato Grosso e da Bahia, por exemplo. Ele não soube quantificar o número de unidades sem operação.

Essa paralisação, segundo Lovatelli, pode comprometer o fornecimento de farelo de soja para o exterior. "Há o risco de não-cumprimento de contratos", afirmou. A situação também pode afetar o custo do frete, já que alguns transportadores internacionais estão temerosos de enviar navios para o Brasil. "Transportadores estão dificultando a liberação de navios para cá porque há incerteza de frete de retorno", afirmou. O resultado disso deve ser uma elevação do preço do frete internacional.

Um agravante na atual crise de rentabilidade, avaliou André Pessôa, da Agroconsult, é que os preços internacionais da soja estão acima da média num mercado com excedente de oferta. Ele concorda com o ministro Roberto Rodrigues de que a área de grãos pode cair 6 milhões de hectares na próxima safra. "Só a redução da área de soja deve ser próxima a 3 milhões de hectares", previu.

Segundo Cesar Borges, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Milho (Abimilho), o setor de milho também vive crise semelhante. Os preços estão em queda num cenário de excesso de oferta, agravada pela redução do consumo do grão pelas indústrias de aves por conta da redução nas exportações em função do avanço da gripe aviária em vários países. "Se o Brasil não conseguir exportar pelo menos 2 milhões de toneladas para reduzir a oferta interna, teremos uma crise de preços mais grave", disse Borges.

No caso dos setores sucroalcooleiro e de café, o cenário é positivo, principalmente graças à demanda internacional crescente, aos preços internacionais já favoráveis e ao déficit na oferta mundial, segundo analistas. (Colaborou Alda do Amaral Rocha)