Sinais de retomada difícil das vendas de fertilizantes

24/05/2006

Sinais de retomada difícil das vendas de fertilizantes

Fernando Lopes

 

A crise de liquidez e renda no segmento de grãos, que já reduziu a demanda por fertilizantes no país em 2005 e deverá provocar um novo tombo neste ano, mudou para pior as perspectivas de longo prazo para as vendas do insumo.

Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), após o recuo de 6% estimado para 2006, quando as entregas das misturadoras às revendas deverão alcançar 19 milhões de toneladas (nível de 2002), o mercado deverá crescer 4% ao ano até 2010, quando as entregas atingiriam 22,2 milhões de toneladas - ainda assim abaixo do recorde de 22,8 milhões de 2003 e 2004.

A prevista queda das entregas em 2006 em relação a 2005, antecipada pelo Valor, decorre sobretudo das estimativas de redução da área plantada de grãos na próxima safra (2006/07). E segundo André Pessôa, da Agroconsult, o efeito dessa queda nos adubos será mais profundo que o previsto pela Anda em 2006.


Para ele, que ontem esteve no Fórum Brasileiro de Fertilizantes promovido pela entidade em São Paulo, as entregas serão inferiores a 19 milhões de toneladas neste ano. "Em 2005, o principal efeito da crise dos grãos no mercado de fertilizantes foi o menor investimento dos produtores nas lavouras. Em 2006/07, o problema central será a queda da área".

Em suas contas, a área plantada de soja deverá cair até 7% na próxima safra e puxar a queda da demanda por adubos, mas o milho também será um problema. Os grãos absorvem a maior parte dos adubos vendidos no país, e a prevista queda do consumo nessas lavouras será compensada só em parte pela maior demanda nos aquecidos mercados de cana, café, laranja e madeira.

Em virtude da queda da demanda, a produção brasileira de fertilizantes - liderada pela Fosfertil - caiu 8,5% de 2004 para 2005 e somou 8,9 milhões de toneladas. Conforme a Anda, as importações caíram 24% na mesma comparação, para 11,7 milhões. Dependente de produtos importados, o Brasil compra de outros países principalmente nutrientes derivados do nitrogênio, cuja oferta doméstica ainda é restrita.

"Com as incertezas no mercado de gás natural, hoje é inviável qualquer investimento privado em plantas nitrogenadas no Brasil. Caminhamos para um déficit de 1,5 milhão de toneladas em 2011", disse Francisco Gros, presidente da Fosfertil. Está em uma das gavetas da empresa um plano para construir uma planta de uréia e amônia na região central do país, que também esbarra nas pretensões da Petrobras de voltar a avançar em nutrientes nitrogenados para o setor de fertilizantes.

Segundo José Lima de Andrade Neto, gerente executivo para as áreas petroquímica e de fertilizantes da Petrobras, a estatal também estuda construir unidades de amônia e uréia. "O setor é importador de insumos, e pouco foi feito para mudar essa situação nos nitrogenados desde que a Petrobras deixou de investir, em 1995. Nossa [do país] dependência externa de uréia, por exemplo, ainda chega a 74%. Voltaremos a ser um ator importante no setor", disse.