Maré ruim para pescadores

24/08/2009

Maré ruim para pescadores

 

 

Nem bem tinham se recuperado da baixa no pescado por causa do derramamento de óleo da Petrobras, em abril, os pescadores de Passé, em Candeias, voltaram a viver o drama da mortandade de peixes na região. Três dias depois de começarem a ver boiar os cobiçados animais, eles lotaram o salão do clube dos pescadores para serem cadastrados e receber ajuda da assistência social da Prefeitura de Candeias.

De acordo com os integrantes de uma comissão de pescadores foram cadastradas 2 mil pessoas entre pescadores e marisqueiras para receber cesta básica.

Washington Paraguaçu, um dos membros da comissão disse que a comissão foi procurada pela prefeitura para fazer o levantamento das pessoas prejudicadas.

A sede da Colônia de Pescadores Z54 permaneceu fechada durante todo o dia.

Ainda sem saber a causa das mortes, Paraguaçu estima que três toneladas de peixes tenham sido perdidas. Para ele, a pesca deveria ser suspensa oficialmente enquanto não for revelado o que aconteceu. “Em abril, não ficou bem esclarecido. Depois do período mais crítico continuamos a pescar para comer porque não se achava para quem vender”, reclamou o funcionário público Ailton Nunes Pereira, 39 anos, que diz complementar a renda com o que tira do mar.

A marisqueira Silvaneide Ferreira dos Santos, 39 anos, contou que ficou dois meses sem mariscar quando ocorreu o acidente da Petrobras, mas que, desta vez a situação está pior. “E agora, quanto tempo mais vamos ficar sem trabalhar?”, preocupa-se.

AMOSTRAS– Uma equipe da fiscalização do Instituto do Meio Ambiente (IMA) voltou, ontem, ao local onde foram encontrados peixes e mariscos mortos desde sexta-feira. A bordo da lancha St.

Paul, o técnico ambiental, Jorge Lúcio Salomão Correia coordenava a coleta de amostras feita por técnicos do laboratório do Centro de Tecnologia Industrial do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/Cetind).

Amostras foram coletadas próximo ao local de descarga da indústrias química Proquigel na interseção do leito do Rio São Paulo com o São Paulinho. Há suspeita de que a morte dos peixes esteja relacionada com as atividades dessa empresas e da Dow Química, segundo ressaltou o pescador Edivandro Pinheiro dos Santos.

Salomão afirmou que até o momento não foi encontrado nada que incrimine as empresas, e que apenas as análises laboratoriais poderão apontar com precisão a causa das mortes.

“Não observamos mau cheiro, nem vestígio de descargas”, disse ele. Segundo ele, os resultados deverão ser divulgados pela diretoria do IMA, na terça ou quartafeira. Amostras de água e sedimentos (solo do fundo do mar) também estão sendo analisadas no Senai/Cetind.

Com lama até os joelhos, o técnico do Senai/Cetind, Fábio Souza, percorreu trechos do manguezal chamado de Ponta do Capim e saiu de lá com uma tainha, um robalo e um baiacu em um saco plástico. Sua preocupação era a de encontrar peixes ainda frescos para o exame das vísceras dos bichos.

Mais adiante, coube à marisqueira Eliete Paraguassu, 29 anos, a captura de 101 chumbinhos para serem juntados às amostras. Ela, que é de Ilha de Maré, disse que lá também apareceram peixes mortos. Ela acompanhava a equipe do IMA e disse que desde o acidente da Petrobras acompanha as inspeções mensais que o órgão ambiental passou a fazer na área.

SUSPEITA – Um operário de uma empresa prestadora de serviços da Proquigel, que pediu anonimato, disse que a morte dos peixes pode estar relacionada com três novas unidades que estão sendo montadas naquela empresa.

Ele disse que uma delas começou a operar na semana passada na produção de sulfato e que pode ter ocorrido alguma manobra inadequada.

No local de descarga da Dow Química e da Proquigel, ontem, não havia indícios da presença de produtos químicos, mas o agente comunitário de Saúde, Rosildo Santana, disse que não é sempre assim. “Quando eles lançam o produto, a água borbulha como se estivesse fervendo e o cheiro é insuportável”, disse.