Produtividade aumenta enquanto salário reduz
Com lucros em alta, o setor investe na inovação. Além do aumento da mecanização – exigência da legislação ambiental para reduzir as queimadas que precedem o corte manual –, estão sendo usadas novas variedades de cana modificadas biologicamente para ter safras mais longas.
Paradoxalmente, o avanço da produtividade é baseado na exploração da força de trabalho, diz Novais. Nos anos 80, cada trabalhador cortava em média seis toneladas de cana por dia. Hoje, as metas vão de oito a 12 toneladas, diz o professor Alves. “Só em São Paulo ocorrerem 14 mortes por excesso de trabalho nas duas últimas safras”, computa ele.
SALÁRIOS – A produtividade aumentou, os salários, não. O piso dos cortadores em São Paulo era equivalente a 2,5 salários mínimos na década de 80 e hoje é de R$ 410. Os migrantes são preferidos pelas usinas por sua alta produtividade. Alojados geralmente dentro dos canaviais, longe de casa e sem acesso às redes locais de proteção, eles ficam totalmente à mercê do empregador. “A usina costuma adiantar dinheiro da viagem. O trabalhador chega endividado, cativo”, afirma Novais.
No fim da safra, a maioria volta para a cidade de origem, mas alguns preferem ficar. É o caso de Edson da Rocha Santos, que saiu de Manuque, Minas Gerais, há um ano, para trabalhar em Campos. Lá, ele ganhava o salário mínimo e agora tira até R$ 800. Trouxe mulher, dois filhos e até o cunhado para morar na Tapera, um bairro pobre de Campos, espremido entre a BR-101 e os canaviais.
Ivaneide Maria de Medeiros é outra nova moradora da Tapera. Saiu de Boca da Mata, em Alagoas, com quatro filhos e chegou ao Rio no dia 29 de abril para encontrar o marido, Carlos dos Santos Silva, que tinha vindo trabalhar na Usina Santa Cruz. “Lá, a gente passa muita precisão: é o lugar mais seco do mundo”.
Já Joana Leopoldina da Silva, 69 anos, trabalhou duro na enxada para criar 18 filhos. Dos 12 que sobreviveram, 11 deixaram o sítio Alto Bonito, no município de São Benedito do Sul, a 179 quilômetros de Recife. Partiram em busca de trabalho formal em estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Bahia.