Ceplac quer instaurar processo interno para apurar denúncias
A direção da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, deve abrir nos próximos dias um processo administrativo para apurar denúncias de que técnicos da entidade teriam ajudado a disseminar, de forma criminosa, a doença vassoura-de-bruxa em lavouras da Bahia nos anos 80. A denúncia foi feita por Luiz Henrique Franco Timóteo em entrevista à revista "Veja".
Gustavo Moura, diretor-geral da Ceplac, disse que também solicitará à Polícia Federal a reabertura de inquérito contra Timóteo, movido em 1989, mas ainda inconcluso. "As denúncias têm de ser apuradas e ele terá de provar as acusações que fez".
Em entrevista ao Valor, Timóteo disse que era militante do PDT na época e decidiu, em 1989, ajudar a disseminar a doença nas lavouras de cacau no sul da Bahia para atingir o poder econômico e político dos "barões do cacau" - que apoiavam a candidatura do então candidato à presidência da República, Fernando Collor de Mello.
Segundo ele, Collor defendia o fechamento da Ceplac. E foi idéia de técnicos trazer a vassoura-de-bruxa à Bahia e tratá-la, para mostrar a importância de manter a entidade em operação. "Representantes do PT viram na iniciativa uma oportunidade de enfraquecer os barões do cacau, que eram defensores do "Carlismo" [influência política de Antônio Carlos Magalhães]", afirmou Timóteo.
Timóteo disse que contou com o apoio de petistas - inclusive financeiro - para levar galhos contaminados com a vassoura-de-bruxa do Pará (onde a doença existe desde 1978) para a Bahia. Ele também acusa o diretor geral da Ceplac, Gustavo Moura, de ter levado pessoalmente amostras de cacaueiros doentes para a Costa do Marfim (atual líder mundial na produção do cacau).
Gustavo Moura negou as acusações e alega que não há registros da doença naquele país. Em relação ao avanço da doença na Bahia, Moura disse que pode ser resultado de fiscalização ineficaz. Conforme documentos aos quais o Valor teve acesso, em 1978 - quando a doença foi descoberta no Pará - , o governo federal publicou portaria proibindo o trânsito de frutos e outras partes do cacaueiro do Pará para a Bahia. Mas as exportações das amêndoas produzidas no Pará continuaram ocorrendo pelo porto de Ilhéus (BA). O primeiro foco da doença na Bahia foi notificado em 24 de maio de 1989. Com o avanço da doença, a produção anual caiu de 426 mil toneladas para 123 mil em 1990. (CB)