Segurança da carne em debate

29/06/2006

Segurança da carne em debate

Palestras na Feicorte, que se encerrou sábado, focaram consumo seguro de alimentos

 

Além dos julgamentos e leilões, o debate sobre temas relevantes para a cadeia produtiva da carne foi um dos destaques da programação da Feicorte (Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne Bovina), encerrada no sábado, no Centro de Exposições Imigrantes, na capital. Um dos assuntos em pauta foi a segurança alimentar, principal exigência da União Européia, um dos principais compradores de carnes brasileiras.

Ao abordar as imposições do mercado europeu em relação à importação de produtos de origem animal e seu impacto na cadeia produtiva da carne bovina, o nutricionista Jon Ratcliff, auditor e consultor europeu, ressaltou a necessidade de um programa de rastreabilidade entre os fornecedores para garantir a origem do produto e a segurança alimentar.

A União Européia, uma das principais importadoras de carne brasileira, exige a rastreabilidade de todo o rebanho até o fim de 2007. No entanto, Ratcliff disse que a UE não acredita que o Brasil consiga manter a proposta por causa do tamanho de seu rebanho, que está em torno de 200 milhões de cabeças.

EXIGÊNCIAS
Na última visita ao Brasil, técnicos da UE apontaram falhas no sistema nacional de identificação dos animais. Os países interessados em manter a comercialização com o bloco devem, porém, seguir todas as exigências, desde a rigidez no sistema de identificação até o bem-estar animal. Para a rotulagem do produto, o bloco exige a isenção de promotores de crescimentos, entre outras substâncias, além de rastreabilidade.

Ratcliff acrescentou que, mesmo sendo o maior exportador mundial de carne bovina, o Brasil não tem o maior faturamento. Para aumentar a competitividade, ele diz que o País precisa incrementar a produção com qualidade, segundo as exigências de cada mercado. “O consumo mundial de carne está crescendo bastante e quem não se adaptar ficará fora do mercado”, alerta.

Em 2005, o País faturou cerca de US$ 3,5 bilhões com as exportações de carne bovina, mantendo-se como maior exportador há três anos, posição que pode ser alterada em razão das barreiras comerciais, por causa da febre aftosa no Paraná e em Mato Grosso do Sul.

SAPI DA CARNE
Outra palestrante do congresso, Esther Cardoso, pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, enfocou o Sistema Agropecuário de Produção Integrada (Sapi) da cadeia produtiva da carne bovina. De acordo com Esther, o Sapi consiste em um conjunto de normas e procedimentos visando a garantir a qualidade do produto, por meio da identificação e rastreabilidade, desde a utilização de insumos agropecuários na produção até as gôndolas das redes varejistas. “O produtor precisa dar atenção especial ao manejo sustentável dos recursos naturais”, disse Esther.

Já o veterinário Renato dos Santos, ao abordar o tema “Importância econômica do bem-estar animal”, destacou o manejo racional no trato diário com o gado. Segundo Santos, o Brasil perde no mínimo 500 gramas de carne por animal, na hora de vender para o frigorífico, por causa dos maus-tratos. Ele observou que 57% dos consumidores europeus estão dispostos a pagar mais caro para ter certeza da procedência e do manejo racional da carne importada.

Santos acrescentou que a Declaração Universal do Bem-estar Animal (Five Freedom) enumera as cinco liberdades que devem ser garantidas ao gado: fisiológica, ambiental, sanitária, comportamental e psicológica. “Os criadores devem mudar os hábitos, até porque qualquer investimento em recursos humanos é revertido em lucro”, conclui Santos.