Em MG, promessa de vinhos finos (Estado de São Paulo)

06/07/2006

Em MG, promessa de vinhos finos

Clima na região de Caldas é perfeito para que uvas viníferas atinjam os requisitos exigidos

Niza Souza

 

A primeira colheita comercial de uvas viníferas, da variedade syrah, na Fazenda Fé, em Três Corações (MG), começa agora. Não é engano. A safra é no inverno mesmo. “O clima na região nesta época do ano é ideal para a produção de uvas para vinhos finos. Não chove, faz sol durante o dia e as noites são frias”, diz o agrônomo José Antônio Siqueira Vieira.

Os vinhos finos brasileiros não têm tradição. O País sempre produziu vinhos comuns, à base de uvas de mesa, como niagara e santa isabel. Embora vinhos finos tipo cabernet ou merlot, de maior qualidade, já sejam produzidos no Sul do País, a quantidade ainda é pequena.

Algumas iniciativas no Sudeste, como a da Fazenda Fé, uma das parceiras da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), tentam, porém, mudar o perfil da vitivinicultura brasileira, já que a demanda por vinhos de qualidade é crescente e o potencial, grande. A média de consumo de vinho no Brasil é de apenas 2 litros por habitante/ano, ante 60 litros na Europa. Nossos vizinhos argentinos e chilenos também estão à nossa frente, consumindo 30 litros/habitante/ano.

UVA DE INVERNO
Após fazer um estágio na França e motivado pela baixa qualidade dos vinhos finos produzidos no Sudeste, o agrônomo Murillo de Albuquerque Regina, da Epamig, iniciou um projeto na região de Caldas (MG) para incentivar o plantio de variedades de uvas finas. Normalmente, a uva é colhida em época de chuva, explica, e isso afeta a maturação, baixando o brix (nível de açúcar), dando maior acidez e aumentando o risco de podridão nos cachos.

Via de regra, diz o agrônomo, os vinhos nacionais são pouco encorpados, porque o clima, na colheita, não permite o perfeito amadurecimento da uva. “Principalmente o que chamamos de maturação fenólica, da casca e das sementes.” O ideal é que a colheita seja feita em época seca, com dias ensolarados e noites frias. E é exatamente esse o clima no outono e no inverno na região de Caldas. “Essa característica garante a qualidade dos vinhos europeus, chilenos e argentinos”, diz.

Para fugir da chuva na colheita, porém, é preciso fazer um manejo de podas diferenciado. Albuquerque explica que, basicamente, são duas podas, em agosto e em janeiro. “Alteramos o ciclo da planta para ela frutificar no inverno.” A primeira poda, em agosto, é feita para a formação de ramos produtivos. “Em janeiro, fazemos a poda efetiva de frutificação. A planta, então, começa a brotar em fevereiro, floresce em março e em abril os cachos começam a se formar”, explica.

EXPERIMENTOS
O plantio experimental foi feito no sistema de espaldeira simples, com densidade de 3 mil plantas/hectare e produtividade de 8 a 9 toneladas por hectare. A produção é um pouco mais baixa, mas esse fator também é proposital. “Quanto menos frutos, maior a qualidade da uva.”

Conforme o pesquisador, o brix desses frutos chegou a 23 graus. As uvas colhidas no verão, normalmente, têm de 17 a 18 graus brix. “Com esse índice de brix não é preciso fazer a chaptalização, ou seja, a adição de açúcar para corrigir o açúcar para atingir a gradação alcoólica ideal.” Além do aumento do brix, conseguiram-se frutos menos ácidos e mais sadios, pois no período seco não ocorre podridão dos cachos. “Temos bagas menores, característica importante para uva vinífera, porque proporcionam intensidade de cor ao vinho.”

A Fazenda Fé iniciou as experiências com uvas em 2001. Na época, diz José Antônio Siqueira Vieira, plantaram-se apenas 300 videiras. “Trouxemos da França clones de merlot, cabernet, chardonnay e outros”, diz. “A que mais se adaptou foi a syrah”, diz o dono da fazenda, Marcos Arruda. “Em um ano e meio ela começou a produzir. Na França, demora até sete anos.”

Com os bons resultados, em outubro de 2004 foram plantados 7.200 pés de syrah, que começam a ser colhidos agora. Conforme Vieira, a expectativa é colher 4 mil quilos por hectare, que devem render 4 mil garrafas de vinho. O custo de instalação do plantio é alto, mas compensa. Segundo Vieira, o investimento inicial foi de R$ 30 mil por hectare, com espaldeiras simples. O custo de manutenção, a partir do segundo ano, é de R$ 10 mil/ano. “Mas é uma cultura que dura até 50 anos.”

O projeto, de acordo com o técnico agrícola da fazenda, Enilson Ribeiro Oliveira, é ampliar a produção das uvas. Ainda este ano, serão plantados mais 5 hectares. ‘Mas o objetivo a longo prazo é chegar a 30 hectares e 200 mil garrafas de vinho/ano”, diz ele.

(SERVIÇO)SAIBA MAIS:
Epamig, tel. (0--35) 3735-1101