Qualidade também em São Paulo
Tradicionais regiões vitivinicultoras unem-se para melhorar cultivos
Em São Paulo, começa a ganhar corpo outra iniciativa para melhorar a qualidade do vinho brasileiro. Já há, no Estado, iniciativas isoladas de produtores que tentam chegar ao mercado de vinhos finos. E, justamente para centralizar todas essas idéias, foi criado no ano passado o Projeto Pró-Vinho. Inicialmente, o objetivo é atingir produtores em duas regiões produtoras de uvas viníferas: São Roque e Jundiaí.
“Queremos promover a revitalização do setor vitivinícola no Estado, desde o produtor de uva até o consumidor final”, diz o coordenador do projeto, Luiz Guilherme Campos de Oliveira. O projeto surgiu, segundo ele, a partir de uma reivindicação do setor: a redução de impostos para a indústria vinícola do Estado. Na última década, São Paulo tornou-se grande importador de vinho. Em contrapartida, houve redução significativa na produção estadual de uva, em função de vários fatores, da especulação imobiliária à falta de investimento em tecnologia para produção da fruta.
DIAGNÓSTICO
O projeto está na primeira fase. Já foi liberada uma verba de R$ 30 mil para que seja feito um levantamento do setor nas principais regiões produtoras de uva: Jundiaí, São Roque, Jarinu e São Miguel Arcanjo. Na segunda fase, que deve começar em 2007, será feito um diagnóstico completo do setor nessas regiões, e até o estudo de variedades apropriadas a cada região.
Alguns produtores adiantaram-se e, por iniciativa própria, passaram pela fase de pesquisas de varietais em suas regiões e já começam a instalar pomares de uvas finas. Como o vitivinicultor Cláudio Góes, de São Roque (SP). Em sua vinícola, já é possível encontrar vinhos de qualidade superior, tipo merlot e cabernet. Mas são apenas engarrafados em São Paulo. As uvas ainda vêm de Flores da Cunha (RS).
Isso deve mudar em breve. Este ano, o produtor começou o plantio dessas variedades em São Roque, onde já cultiva cerca de 50 hectares de uva de mesa. “Estou instalando 10 hectares de uvas finas, cabernet e merlot”, diz Góes, que também é presidente do Sindicato da Indústria do Vinho de São Roque. “Em cinco anos pretendo converter todo o parreiral e plantar apenas uvas finas.”
A idéia, explica Góes, é resgatar a atividade vitivinícola especialmente em São Roque, que já foi referência de uvas viníferas no Brasil. No auge da produção, na década de 60, o município chegou a ter 150 pequenas empresas vitivinícolas. “A cidade ficou conhecida nacionalmente por sua festa do vinho.”
Nas últimas décadas, porém,não houve investimento em novas tecnologias e variedades. Com isso, a cidade perdeu a vocação vinífera. “Houve grande especulação imobiliária. O produtor que plantava para abastecer a indústria do vinho não agüentou”, explica Góes. Conseqüentemente, a indústira passou a comprar a uva do Sul.
VALOR AGREGADO
Apesar dos contratempos, Góes acredita na retomada da atividade no Estado. “É outra geração. Por isso queremos investir em uvas para produção de vinhos finos, porque têm maior valor agregado”, diz. A indústria paga hoje cerca de R$ 0,50 o quilo da uva de mesa, como a niagara. Já as uvas européias, para vinho, são vendidas por R$ 1,20 o quilo. “É um grande incentivo para o produtor.”
Antes de investir no plantio das varietais européias em São Paulo, Góes conta que foram quatro anos de pesquisas. “Estamos instalando lavouras de cabernet sauvignon, moscato lorena, riesling e violeta, uma nova variedade híbrida, da Embrapa”, explica. Com o projeto, as pesquisas já desenvolvidas por Góes, por exemplo, podem ser repassadas para outros produtores interessados. “Precisamos aglutinar as iniciativas, para os produtores interessados terem acesso a essas tecnologias e ao plantio de novas variedades.”