Produção Artesanal de rapadura em Casa Nova (A Tarde)

17/07/2006

Produção Artesanal de rapadura em Casa Nova

 

A produção de melado e rapadura na zona rural de Casa Nova, a 72 quilômetros de Salvador, ainda é nos moldes dos séculos pós-colonização, usando moenda de cilindro de metal ou de madeira e burros no processo. Um exemplo dessa atividade foi visto, de forma reduzida, na praça de eventos da 19ª Festa do Interior, quando Amadeu Rodrigues da Silva, 61 anos, produtor de rapadura, mostrou, em um engenho, o trabalho artesanal feito na sua propriedade, na comunidade de Tiririca.
“Produzimos 1.250 rapaduras por dia, com 14 pessoas”, conta ele. Na réplica do engenho, o caldo da cana foi transformado em melado fino, grosso, melaço, batida, tijolo ou rapadura, com homens manuseando tachos de diferentes tamanhos, sobre cinco bocas de uma fornalha de tijolos construída para a ocasião pelo ponteiro de rapadura Pedro Hilário da Silva, 78 anos.
A demonstração durou dez horas. O trabalho começou com a extração de cinco toneladas de canade-açúcar, transformadas em garapa. O líquido foi derramado nos cinco tachos, na fornalha (no alambique uma fornalha tem pelo menos dez tachos), e passou por vários níveis de fervura. Nessa miniatura de engenho, tradição na festa local, foram produzidas cerca de 500 rapaduras de 1,2 kg por dia, vendidas a R$ 3.
Do lado de fora da barraca onde estava o engenho, as pessoas esperaram horas para apreciar o caldo de cana e o pau melado, um dos mais apreciados, que é um gomo cana descascada, lambuzado em melado fino, sempre girado, para que o melado não escorregue.
“Fui criada vendo isso e venho para matar a saudade”, diz o garoto Gilvani Maria do Carmo Amorim, ao lado da mãe, Turvalina da Conceição, e do pai, Josival Amorim, que vieram de Petrolina (PE). Também José Pedro de Souza e Luíza Maria da Conceição, há 27 anos casados, dividem o melado em um único copo.

MOAGEM – O produtor Francisco Lunguinho de Souza, 61 anos, mexe os tachos, revirando as conchas a uma altura que permite que se veja como o melado vai se formando. Ele vive com a família em 18 hectares, onde planta milho, mandioca, feijão e cana-de-açúcar, em área de sequeiro. Mas a rapadura é feita na propriedade do tio, Bruno Rodrigues de Souza, que tem engenho de madeira.
“Produzimos cem cargas de rapadura por mês (50 unidades por carga), mas não temos transporte e pagamos R$ 10 de frete por carga, a cada 15 dias, para levarmos a mercadoria, que é vendida na cidade por R$ 2 a rapadura”, conta.
Para Amadeu Rodrigues, que tem oficina em casa, com dez fornalhas de dez tachos funcionando a todo vapor, a falta de chuva impede uma maior produção de canade-açúcar na região, já que a área é de sequeiro, sem irrigação.
“Existem poucos produtores de cana e a maioria ainda faz a rapadura de maneira artesanal”, garante, certo de que, com a chuva, a cana ficaria mais madura e o produto, melhor. “As chuvas permitiriam que a rapadura tivesse um gosto melhor e a gente ainda poderia aproveitar a terra molhada”, completa Rodrigues.
Exemplifica, dizendo que plantou milho, mesmo sem chover, porque o terreno estava bem molhado e ainda pôde colher 90 sacas.
“O terreno tem que ser bom e ter muita chuva para garantir o solo molhado que possa gerar também outras culturas, inclusive de cana”, assegura. Para a moagem, informa que a melhor safra de cana ocorre de agosto em diante.
A experiência desses produtores na produção conjunta de melado e rapadura é mostrada todos os anos em Casa Nova na Festa do Interior, quando se reúnem durante três dias para mostrar aos moradores e turistas todo o processo beneficiamento de um produto que sustenta milhares de famílias.
Amadeu Rodrigues, por exemplo, gasta em média R$ 1 mil para montar a réplica do engenho em Casa Nova e cada rapadura ou melado que saiu da sua barraca, durante a feira, trazia o rótulo “Mel de Cana Delícias de Casa Nova”, da comunidade de Luiz Viana, identificando um trabalho de todos.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Casa Nova, José Amorim Libório, afirma que, apesar da tradição, a falta de chuva inviabiliza muito o plantio de cana-de-açúcar na região. “Procuramos ajudar o pessoal com cursos de capacitação”, assegura. Libório diz que seria importante que esses produtores tivessem uma cooperativa criada.

 

CRISTINA LAURA