Famílias do Cariri temem desocupação do parque

13/09/2010

Famílias do Cariri temem desocupação do parque


Mário Bittencourt

A criação do Parque Nacional do Alto Cariri,em Guaratinga, a 699 km de Salvador, no extremo sul da Bahia, tem tirado o sono de dona Adelina Ribeiro da Silva, 69. A terra dela,de pouco mais de 10 hectares, é um dos cerca de 150 imóveis rurais que estão na área do parque, que possui 19.264hectares,conforme delimitação do decreto presidencial, publicado no último mês de junho.

Todos os imóveis no parque são, agora, de utilidade pública e serão desapropriados.Ninguém poderá ter propriedade privada na área e todos devem deixar o local.“Eu moro aqui há quatro anos, desde que meu marido faleceu. Esse é o único lugar que me traz paz. Não gosto de ir à cidade porque tem muito barulho. Não sei o que vou fazer quando tiver de sair dessa terra. A criação desse parque ambiental tem gerado uma angústia muito grande em mim. Não tenho dormido direito”, contou dona Angelina, que vive como filho João Souza de Brito, 41, e que cria porcos e galinhas e cultiva frutas e legumes.

Na mesma situação estão Teodorico Francisco da Luz, 69, e Joana Maria de Jesus, 67.Eles nunca pensaram em deixar a área e ir morar em outro local. “Tem um mês que veio uma mulher aqui perguntar o que eu tinha na minha roça e, depois disso, só vocês que estão aqui para falar desse parque”, disse ele.

Dona Joana está há 30 anos na sua roça, onde vive com o filho Valdir José Costa, 40, e tem 150 pés de coco,60 pés de laranja, 1.200 de cacau e outros tantos de frutas diversas.“Que mal vamos fazer se ficarmos aqui?”, questiona.

Segundo levantamento do técnico em topografia Rômulo Rafael Santos, cuja família possui imóvel rural dentro da área do parque, há ao menos 80 famílias de agricultores familiares que terão de deixar suas terras.

Rômulo diz conhecer aárea como a palma da mão, de tanto realizar trabalho de medição de terras na região. “Me preocupo com essas famílias que têm uma terra pequena e não terão para onde ir depois da indenização. A criação do parque é válida porque ela visa preservar a mata atlântica, que tem sido devastada por alguns fazendeiros”.

O decreto presidencial, publicado no Diário Oficial da União em 14 dejunho de 2010, não especifica em quanto tempo as famílias terão de deixar suas terras.O processo de desapropriação, disse o coordenador do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) de Porto Seguro, Leonardo Nunes, pode levar até cinco anos.

“A criação do parque está no início e o processo é lento.
Estamos fazendo um levantamento prévio de todas as propriedades e as benfeitorias feitas para que possamos chegar a um valor de indenização”, informou, acrescentando que os pequenos produtores podem ser levados para áreas de assentamento, se preferirem.

Nova reserva preservará macaco em extinção

Um dos objetivos principais da criação do Parque Nacional do Alto Cariri é a preservação do macaco da espécie muriquei-do-norte, ou ou mono-carvoeiro (Brachyteles hypoxanthus), o maior macaco das Américas e que é considerado uma das 25 espécies mais ameaçadas de extinção do mundo, que só é encontrado nesta região.

Estudos desenvolvidos pela ONG Conservação Internacional, em 2000, encontraram três grupos dessa espécie na área do parque. “Que eu saiba, na Bahia esse é o único lugar onde ele existe”, declarou Leonardo Nunes, o coordenador do ICMBio, que ficará responsável pela gestão do parque.

Agricultores como Valdir José Costa, 40, e Arlene Ambrósio Araújo, dizem que já viram os macacos. “Mas eles não ficam por muito tempo deixando ser vistos.Achoque por medo, porque muito caçador já matou macaco aqui”, contou Valdir.

Outro objetivo do parque é fazer com que atividades mineradoras não sejam realizadas na região. O decreto autoriza apenas que seja feita prospecção, que é o trabalho de pesquisa.

Asatividades de mineração na zona de amortecimento do parque, que são áreas no entorno da unidade, estão sujeitas a normas e restrições específicas com objetivo de minimizar impactos negativos sobre a área, só serão permitidas quando for criado o plano de manejo. Leonardo Nunes disse que não há nenhuma atividade mineradora autorizada na região.

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