Arraes destaca importância da agricultura familiar e das instituições estaduais de pesquisa para o salto de produção no campo

23/09/2010

Arraes destaca importância da agricultura familiar e das instituições estaduais de pesquisa para o salto de produção no campo

 

 


Em entrevista ao Portal Brasil, o diretor-presidente da Embrapa, Pedro Arraes,  comentando a reportagem sobre  o sucesso da agricultura brasileira publicada na revista The Economist, ressaltou a contribuição das instituições estaduais de pesquisa e da agricultura familiar para o grande salto na produção no campo. Leia a matéria publicada no Portal Brasil,  reproduzida abaixo.

"Embrapa diz como fez agricultura do País crescer e ganhar aplauso da Economist

Uma das publicações mais respeitadas do mundo, a revista britânica The Economist, especializada em economia, publicou nesta semana extensa reportagem sobre "o extraordinário crescimento da Agricultura no Brasil". Com o título O milagre do Cerrado, o artigo afirma que a EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA) é uma das principais razões para essa revolução no setor agrícola do País.

Sobre esse avanço, que contou com o indispensável apoio do Estado brasileiro, o Portal Brasil entrevistou, com exclusividade, o diretor-presidente da EMBRAPA, Pedro Arraes (veja abaixo).

Graças a inovações tecnológicas desenvolvidas pela EMBRAPA, que melhoraram a qualidade das sementes e dos produtos agropecuários, em menos de 30 anos, o Brasil deixou de ser um grande importador de alimentos e passou a ser um dos maiores celeiros do mundo. Entre os números apresentados pela matéria estão os que mostram que o País está hoje, entre os cinco maiores produtores de grãos do mundo, com um crescimento de 365% somente na última década.

Ainda neste período, o Brasil multiplicou por dez a sua produção de carne, ultrapassando a Austrália como maior produtor mundial. Tornou-se ainda o maior exportador do planeta de carne de frango, de açúcar e álcool de cana-de-açúcar (etanol). Cerca de 70% dessas culturas se encontram no Cerrado, região que até há pouco tempo era considerada inútil para a Agricultura, por causa da alta acidez de seu solo.

E as perspectivas para o futuro são animadoras, segundo a Organização das Nações Unidas para A Agricultura e Alimentação (FAO), pois revelam que o País utiliza apenas 40 milhões de hectares, mas tem potencial para 400 milhões de hectares.

Para Pedro Arraes, apesar da The Economist ecoar ao mundo o grande sucesso agrícola do País, é preciso salientar dois pontos não abordados pela revista, mas que foram fundamentais para o salto na produção do campo: a importante contribuição de uma rede com mais de 17 instituições estaduais de PESQUISA AGROPECUÁRIA - algumas até mais antigas que a EMBRAPA.

Em segundo lugar, o trabalho desenvolvido junto ao pequeno agricultor, na área da Agricultura familiar, responsável, por exemplo, pela produção de quase 100% dos produtos que integram a cesta básica brasileira.

Veja, a seguir, a íntegra da entrevista.

Portal Brasil - O senhor poderia fazer uma rápida análise sobre a matéria publicada pela revista The Economist desta semana?

Pedro Arraes - A matéria tem diversos aspectos interessantes, o fato de que a gente aumentou a produtividade usando menos área. Mostra a nossa competitividade, que a agricultura brasileira é pautada na ciências, na tecnologia mais avançada do mundo. Mostra um Brasil moderno. Mas destaco duas omissões, vamos dizer assim, fundamentais. A primeira delas é que a EMBRAPA coordena um sistema nacional de pesquisa em agropecuária, com várias instituições estaduais, inclusive algumas que têm o dobro ou quase o triplo da idade da EMBRAPA.

A EMBRAPA e suas 45 unidades tem obviamente um papel fundamental nesse avanço, mas ele se deveu também a essa grande rede, a qual ela coordena: as Organizações de Estaduais de Pesquisa Agropecuárias (Oepas), universidades, institutos de pesquisa de âmbito estadual e federal e ainda outras organizações direta ou indiretamente vinculadas às unidades de PESQUISA AGROPECUÁRIA.

Então é um esforço conjunto dessas instituições públicas e também de associações de produtores, que há muito tempo tiveram uma interação imensa em toda essa questão de pesquisa.

A outra questão é que a EMBRAPA é uma empresa plural, como o Brasil é plural e como a agricultura brasileira é plural. A empresa foi fundada em 1973, com o objetivo principal de atender à demanda do mercado interno. Naquela época havia filas para comprar feijão, arroz, nos supermercados. E a EMBRAPA foi um sucesso na questão de atendimento da demanda interna, inclusive com reflexos imensos no custo da cesta básica.

A cesta básica caiu drasticamente, o que favoreceu o governo inclusive nesse programas sociais hoje, como o próprio Bolsa Família. Porque a produção de alimentos aumentou tanto que teve possibilidade de se baixar o preço desses produtos fundamentais. Não só o arroz e o feijão, mas o frango, a carne e outros produtos de maneira geral.

Esses produtos são muito mais voltados para a agricultura familiar. O feijão, por exemplo, é muito pautado na Agricultura Familiar. Esse componente foi esquecido no artigo. E é um componente fundamental. E, talvez, isso seja a maior força que o Brasil tem, de ter uma Agricultura Familiar forte, que atende o mercado interno; e uma agricultura de maior porte, que atende o mercado externo. Essas duas coisas são complementares. Nos dá competitividade efetiva.

PB - Há um aumento de acesso do pequeno agricultor à tecnologia desenvolvida pela EMBRAPA hoje?

PA - É necessário que haja uma extensão rural forte, de qualidade e isto está se reerguendo no Brasil. Tanto houve um aumento que o único produto que nós importamos de fora é trigo. Somos praticamente autosuficientes em todos os outros produtos da nossa cesta básica. E tem muita pesquisa por trás disso e uma pesquisa voltada para o pequeno produtor, para a Agricultura Familiar.

O papel da EMBRAPA é fazer a tecnologia e muitas vezes essa tecnologia é feita de forma participativa com esses pequenos produtores, mas muitas vezes não. A EMBRAPA não é uma empresa de extensão rural, porque a pesquisa é concentrada. E como a pesquisa é concentra, ela é muito diferente da extensão rural que é capilar, por todos os territórios brasileiros, por todos os municípios.

Isso significa então que o fortalecimento da extensão rural e de outros agentes nessas pequenas associações de produtores, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e as Federações de Trabalhadores na Agricultura, são extremamente importantes.

Importante para que cada vez mais a gente possa fazer esse canal de ligação entre a geração tecnológica e a inserção dessa tecnologia lá onde ela deve ser inserida. E, por outro lado, o caminho inverso, de nos trazer para a EMBRAPA os problemas de pesquisa, que temos que pesquisar para solucionar, os problemas que os pequenos produtores estão tendo lá na ponta, na propriedade.

PB - E quais são as perspectivas de futuro da PESQUISA AGROPECUÁRIA no Brasil?

PA - No Brasil hoje, temos em torno de 5,3 milhões de estabelecimentos rurais de todos os tamanhos. Desse total, temos em torno de 480 mil produtores, que representam 75% da renda bruta da Agricultura Nacional. Independentemente do tamanho, buscam a tecnologia na EMBRAPA ou onde quer que ela esteja, nos Estados Unidos, na França ou em outro lugar, porque eles sabem da importância da tecnologia para a competitividade deles.

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