Agricultura familiar é destaque nas comunidades quilombolas
Foto: Aurelino Xavier
Consagrados pela história como locais isolados e de difícil acesso, que serviam para refúgio de negros no século XIX, os quilombos eram a primeira opção para aqueles que fugiam dos senhores de engenho em busca da liberdade, organização social, cultural, econômica e trabalho dentro da comunidade. O mais famoso, certamente, foi o Quilombo de Palmares no estado de Alagoas, que teve como referência Zumbi dos Palmares.
Apesar de já terem passado mais de 100 anos da abolição da escravatura, os quilombos ainda são uma realidade. Na Bahia, por exemplo, existem cerca de 808 comunidades quilombolas, das quais 206 já estão certificadas pela Fundação Palmares. Um dos destaques é o Campo Grande, no município de Santa Terezinha, Território Piemonte do Paraguaçu, que possui 240 famílias de descendentes de escravos, cuja atividade principal ainda é a agricultura.
Dentro dessa vertente, a Secretaria da Agricultura (Seagri), através da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), órgão responsável pela assistência técnica e extensão rural no estado, vem intensificando suas ações junto aos quilombolas da Bahia.
A missão da EBDA é promover o acesso à assistência técnica, juntamente com a comunidade, através do modelo agroecológico, com o principio da economia solidária, garantindo a qualidade de alimentos e a melhoria de vida das pessoas, tendo como consequência todo um processo de autonomia sócio-política, econômica, cultural, ambiental e alimentar”, declarou o presidente da EBDA, Emerson Leal.
De acordo com a técnica da empresa, em Castro Alves, e responsável pelas comunidades quilombolas da região, Lucinete Amara, o maior objetivo a ser alcançado é o desenvolvimento rural sustentável, respeitando os princípios e as diretrizes culturais de cada comunidade quilombola.
Em 2010, o foco da Empresa está voltado para otimizar o acesso dos agricultores familiares junto às linhas de crédito rural, dentre eles, os quilombolas, e para tanto intensificou suas atividades de emissão de Declarações de Aptidão (DAP). A Declaração é o instrumento que identifica o agricultor familiar como beneficiário do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), e é obrigatório para acessar créditos e programas sociais.
A DAP é o passaporte que dá ao agricultor acesso aos programas sociais dos governos do estado e federal, às linhas de crédito como o Pronaf A ou B, ao programa Mais Alimentos, e dá também garantia do direito à assistência técnica e à tecnologia, portanto, é essencial que os quilombolas façam parte das políticas públicas do estado, e das 240 famílias de Campo Grande, mais da metade já está apto a receber os benefícios dos programas; a meta é inserir 100% dos quilombolas nos programas sociais”, disse Lucinete.
Além disso, a EBDA tem realizado periodicamente capacitações, através de Dias de Campo, palestras, seminários e cursos, cujo intuito é implantar projetos produtivos comunitários, tais como: casa do mel, casa de farinha, hortas, pomares, criação de pequenos animais (galinha-caipira, suínos, caprinos e ovinos, peixes e abelhas) e artesanato.
Ações e resultados
De acordo com a presidente da Associação dos Quilombolas de Campo Grande, Marilene dos Santos, após os cursos de pintura em tecidos e artesanato com palhas oferecidos pela EBDA, as mulheres da comunidade aprenderam a produzir tapetes, bolsas, chapéus, bocapius, que são comercializados nas feiras livres da região.
Nossas bolsas já são comercializadas entre R$ 15 e R$ 35; estamos muito empolgadas com as vendas; com esse curso conseguimos mais uma fonte de renda com a venda das toalhas de prato e bolsas; a meta agora é produzir mais para as festas de fim de ano”, comentou a quilombola. O curso de pintura acontecia duas vezes, por semana, para cerca de 20 pessoas, que aprendem a pintar em toalhas e pano de prato.
Outra ação exitosa é a do apicultor Genivaldo da Silva, mais conhecido na comunidade como Mil, que, através dos cursos de apicultura, resolveu investir na produção do mel. Comecei trocando alguns animais (galinhas-caipiras e patos), que eu tinha, por caixas de armazenamento de mel; o sucesso foi total, gostei e agora só me dedico à produção de mel; já tenho 20 caixas que cabem 120 litros de mel e vendo de R$10,00 a R$15,00 o litro; tenho comprador até de São Paulo e Brasília, comentou Mil.
A EBDA, além dos quilombolas tem orientado e capacitado estudantes dos ensinos médio e fundamental e interessados em apicultura. Meliponicultura, georreferenciamento, manejo avançado para produção do mel, orientações para apicultores e familiares em saúde preventiva e segurança do trabalho, cooperativismo, associativismo e resgatar a cultura da abelha nativa sem ferrão, que está em extinção, são alguns dos temas dos seminários, minicursos e palestras que são disponibilizados, gratuitamente, aos apicultores.
Expectativas
Segundo o diretor de Pecuária da EBDA, Elionaldo Teles, a Empresa visa capacitar todas as comunidades quilombolas da Bahia, pois o sentido é contribuir para o desenvolvimento sócio-político e a consciência ambiental das áreas de quilombos, buscando a identidade e a inclusão social como forma de garantir a sustentabilidade, que há séculos foi negada, resultante da exclusão social escravocrata.
A capacitação que pretendemos oferecer aos agricultores, jovens e mulheres, visa disponibilizar instrumentos que permitam utilizar os recursos naturais de forma equilibrada, em sintonia com a agroecologia, finalizou Teles.
O projeto junto aos quilombolas tem o objetivo, a priori, de elevar a consciência social, que possibilite a participação efetiva dos agricultores nas discussões dos seus direitos enquanto cidadãos, como também fornecer tecnologias desenvolvidas para atender às necessidades do produtor rural.
Fonte:
Assimp/EBDA
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