Nova praga ameaça o cacau
Depois da vassoura-de-bruxa, doença que em 16 anos derrubou a produção baiana de cacau de 397,3 mil, em 1989, para 143,3 mil toneladas/ ano, safra 2005/06 e desempregou 250 mil pessoas, um inseto denominado Conopomorpha cramerella é a nova grande ameaça à lavoura cacaueira.
Originário da ilha de Sulawesi, na Indonésia, a praga ou cocoa pod borer pode chegar através da importação do produto, via Porto de Ilhéus. O inseto, que é uma pequenina borboleta, põe ovos no fruto quase maduro e suas larvas penetram no interior e se alimentam da polpa, fazendo uma broca que destrói 60% do fruto. Na Indonésia, as perdas alcançam 40% da produção, com prejuízos de US$ 300 milhões.
Lá o cacau tem menos qualidade, porque é colhido antes de amadurecer, para evitar o ataque do inseto.
O alerta vem do chefe do Departamento de Genética e Evolução da Universidade de Campinas (Unicamp), Gonçalo Guimarães Pereira, coordenador do projeto do genoma da vassoura-de-bruxa.
Segundo o pesquisador, esta é uma tragédia anunciada, em face das falhas na fiscalização em portos, aeroportos e postos de fronteira, admitida em recente relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). “O governo federal tem o dever de coibir a importação, já que o cacau deixará de ser viável se for atingido por um novo golpe dessa magnitude”, afirma.
Pereira destaca que quando aconteceu a febre aftosa o governo parou tudo para resolver a questão.
“Por que não com o cacau?”, indaga, afirmando ser temerário a entrada de caminhões, navios ou outro meio de transporte de zonas produtoras da Indonésia.
Já Sílvio Menezes dos Santos, chefe da Unidade de Vigilância de Vigilância Agropecuária, de Ilhéus, ligada ao Ministério da Agricultura, não vê perigo na importação de cacau da Indonésia, nem da Costa do Marfim. Segundo ele, as indústrias só importam cacau fermentado ou seco, desses dois países, onde foi realizada análises de risco.
O fiscal diz que as processadoras tentaram importar cacau da América Central, onde existe a monília e outras doenças, mas o Ministério da Agricultura negou. Ele destaca que o perigo estaria na importação de material vitalizado (sementes, frutos e galhos), por isso não vê risco na importação. Para ele, o problema não está na quantidade, mas na qualidade da inspeção, na origem e no destino.
FISCALIZ AÇÃO – Sílvio Menezes ressalta que a broca do cacau não é o único problema para a fiscalização, que tem mais de 30 pragas quarentenárias, entre vírus, fungos, bactérias e ervas daninhas monitoradas. O fiscal afirma que o manejo fitossanitário no processo de importação de cacau é seguro e passa por três fases, além da inspeção no local de produção.
Antes de receber a carga, os porões do navio são desinfetados por 24 horas, com brometo de metila a 80 gramas por m³. Em seguida, jogase um produto clorado também para desinfecção. Por último, com o navio já carregado, faz-se a fumigação com gás à base de focina, lacrando-se os porões, que só são abertos 120 horas depois.
A fiscalização interestadual foi instituída pela Portaria 911, de 3 de outubro de 1978, do então ministro da Agricultura, Alisson Paulinelli, que criou a Campanha Contra a Entrada de Vassoura-de-Bruxa (Cavab). As barreiras controlavam a saída de material vegetal da Amazônia, onde a doença é endêmica, para a Bahia, Espírito Santo e outras áreas onde houvesse plantações de cacau.
Segundo Luís Carlos Cordeiro, ex-chefe de Defesa Fitossanitária do Centro de Pesquisa do Cacau e responsável pela Cavab, as barreiras foram atribuição da Ceplac até 1990. Depois o Estado encampou a tarefa, através de órgão de defesa vegetal, transferindo em seguida para a Adab, responsável pelas barreiras nos últimos 11 anos. A vigilância era feita no aeroporto de Ilhéus e Salvador, na rodoviária de Salvador, além de postos nos municípios de Senhor do Bonfim (BA) Cristinápolis (SE), Serra (ES) e Monte Alegre (MG). Entre 1988 e 1989, no posto de Senhor do Bonfim, foi apreendida e queimada uma carga de amêndoas de cacau, procedente de Rondônia.
ANA CRISTINA OLIVEIRA