Vinhos do semiárido: novidades que fazem bem à saúde
Vinhos elaborados no submédio do Vale do São Francisco com as variedades Syrah, Tempranillo e Petit Verdot possuem, respectivamente, quantidades de trans-reverastrol 6, 3 e 2 vezes mais que o mesmo produto de origem francesa, espanhola ou argentina. Pesquisas na área de medicina revelam que essa substância tem ação anticancerígena e preventiva de doenças cardiocirculatórias.
Estes foram parte dos resultados obtidos pela então estudante de doutorado e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Luciana Leite de Andrade Lima. A tese foi concluída em fevereiro de 2010, no Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sob a orientação da professora Nonete Barbosa Guerra e co-orientação do pesquisador da Embrapa Giuliano Elias Pereira.
Nas parreiras, o trans-reverastrol tem a função de proteger as plantas de determinados tipos de estresses físico e ambiental. Nas áreas de cultivo do semiárido brasileiro, a prática de interromper a irrigação em um ambiente de alta temperatura, quando os frutos estão próximos ao ponto de colheita, faz com que as plantas acelerem seus mecanismos de defesa e produzam mais compostos de interesse biológico como trans-resveratrol, quercetina e rutina.
TIPICIDADE
De acordo com o enólogo da Embrapa, Giuliano Elias Pereira, o clima quente e seco da região pode explicar a diferença na concentração desses elementos químicos entre os vinhos do semiárido e aqueles processados nas zonas de temperatura mais amena da Europa, dos Estados Unidos, Argentina e mesmo do Rio Grande do Sul.
Para ele, nos percentuais em que são encontrados leva-se a crer que o consumo de vinhos tropicais do Brasil poderá ser mais benéfico à saúde do que outros tipos de vinhos elaborados nas zonas tradicionais de produção, de clima temperado. "Um produto com potente ação antioxidante, capaz de transformar o mal (LDL) no bom (HDL) colesterol, tem um apelo comercial capaz de dar grande evidência aos vinhos do vale do São Francisco".
Esta é mais uma vantagem da vitivinicultura tropical. A região já é marcada por uma situação que é única dentre todas as áreas vinícolas ao redor do planeta: é a única onde a combinação de ambiente e desenvolvimento tecnológico tornou possível a produção de uvas e a elaboração de vinhos em qualquer época do ano, com características distintas de qualidade e tipicidade.
GEOGRÁFICA
Esta possibilidade cria uma situação também muito distinta da europeia e das zonas vinícolas das Américas do Norte e do Sul. Em países como a França e a Argentina, por exemplo, os enólogos em 30 anos de vida profissional chegam a elaborar 30 vinhos. No submédio do vale do São Francisco, um mesmo profissional pode elaborar esta mesma quantidade em apenas um ano, por ser possível escalonar a produção, entre os meses de maio e dezembro, e realizar colheitas uvas e vinificar todas as semanas e todas as quinzenas.
Esta é uma riqueza para o mundo do vinho que deve se valorizar ainda mais com a descoberta das grandes quantidades de compostos bons para a saúde nos vinhos produzidos entre os paralelos 80 e 90 do hemisfério Sul, em altitude média de 350 m. Bem distante das regiões tradicionais de clima temperado no mundo (entre os paralelos 30 e 45º dos hemisférios Norte e Sul), explica Giuliano.
A vitivinicultura é uma atividade de crescente importância no negócio agrícola do semiárido brasileiro. Com seis vinícolas instaladas, a produção na região já representa 18% do mercado nacional de vinhos finos. É a segunda maior do país, atrás do Rio Grande do Sul.
A presença de compostos como o trans-resveratrol, quercetina e rutina nos vinhos das variedades Syrah, Tempranillo e Petit Verdot, registrada por métodos científicos em laboratórios da Embrapa e das Universidades Federais em Pernambuco (UFRPE e UFPE), é base para caracterização física, química e sensorial. São informações que valorizam uma identidade regional e favorecem a adoção de mecanismos como a Indicação Geográfica de Procedência dos vinhos do vale do São Francisco.
A evolução da qualidade dos vinhos da região, dos investimentos em pesquisa e a ampliação das áreas das vinícolas no semiárido brasileiro, principalmente nos estados da Bahia e de Pernambuco, fortalece a presença do Brasil no panorama vitivinícola nacional e internacional, colocando o país como produtor mundial emergente, garante Giuliano.
ESTABILIDADE
Cerca de 60% dos vinhos tintos produzidos no vale do São Francisco são da variedade Syrah. A quantidade processada a partir da uva Tempranillo também tem se expandido muito, sendo a segunda variedade tinta mais empregada. A Petit Verdot embora pouco utilizada nos vinhos comerciais, já está sendo reconhecida. Nos estudos que realiza com essa variedade, chama a atenção a estabilidade fenólica do vinho elaborado a partir dessa uva quando comparado a outros tipos de uvas.
"Esta variedade poderá proporcionar a obtenção de uvas com alto potencial enológico, para ser usada na a elaboração de vinhos jovens, com pouca estrutura e equilibrados, bem como para a elaboração de vinhos de guarda, em que passam por estágio em barricas, e são indicados para serem guardados por alguns anos", afirma o pesquisador Giuliano.
Fonte:
Embrapa Semiárido
Marcelino Ribeiro - jornalista
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