Noz pecã desponta como alternativa de renda no Sul do país
Uma boa chacoalhada nos galhos e o dinheiro cai das árvores, algumas com mais de 25 metros de altura. A cada quilo de nozes pecã recolhido, são entre R$ 5 e R$ 5,50, e esses valores, atraentes, tiraram a cultura do ostracismo. No Sul do país, após duas décadas esquecida, a noz voltou a atrair a atenção de pequenos produtores insatisfeitos com as cotações dos grãos e de grandes empresas.
Segundo o engenheiro agrônomo da Emater-RS no município gaúcho de Anta Gorda, Fernando Selayaran, o atual preço das nozes é o mais alto da história, resultado das estiagens que afetaram a produção em 2004 e 2005 e da maior procura pela fruta para consumo in natura ou para processamento pela indústria de doces e alimentos. No ano passado, a remuneração ficou em torno de R$ 4 o quilo.
Há quem duvide que as cotações se mantenham no patamar atual, quase 40% superior ao de 2005, mas no momento os valores levaram a uma euforia que pode provocar a falta de mudas já em 2007, como acredita o maior viveirista de Anta Gorda, Luiz Pitol. Historicamente os preços equivaliam a US$ 1, mas a aposta é que agora eles não baixem de R$ 3,50, o que já garante uma boa rentabilidade em virtude dos baixos custos de adubação e proteção das plantas.
Além disto, afirma Selayaran, a nogueira pode ser facilmente consorciada com outras culturas, como milho, pastagem e até laranja. O agrônomo explica que as melhores opções são aquelas que têm raízes superficiais, que não disputam espaço no subsolo com o amplo sistema radicular das árvores.
A 181 quilômetros de Porto Alegre, Anta Gorda concentra o maior contingente de pequenos produtores gaúchos dedicados à cultura, que chegou ao Rio Grande do Sul nos idos de 1945, quando o depois prefeito Armínio Mioto trouxe de São Paulo as primeiras mudas de variedades originárias do Sul dos Estados Unidos. Cerca de 300 famílias produzem cerca de 100 toneladas por ano - a colheita ocorre em maio e junho - em 70 hectares para complementar a renda obtida com a produção de leite, suínos, milho, fumo e laranja.
O produto é em geral vendido para atacadistas ou intermediários, incluindo aí os produtores maiores que dispõe de estrutura para beneficiamento. Os atacadistas o revendem descascado à indústria ou ao varejo, na faixa de R$ 15 o quilo em função de uma quebra média de 50% no peso. Mas, para o consumidor final, o valor pode chegar a R$ 55 o quilo em volumes fracionados, calcula o agrônomo da Emater-RS.
É difícil estabelecer médias para o segmento. Muitas famílias têm uma ou duas nogueiras e só agora estão prestando mais atenção à cultura. Outros produtores já estão bem mais adiantados. Pitol, por exemplo, além de cultivar mudas vendidas a R$ 15 a unidade, compra safras de terceiros e já planta 4 hectares para produção da fruta - mas pretende chegar a 20 em três anos. De acordo com Selayaran, nos últimos três anos mais de 30 hectares foram plantados no município e ainda não entraram em produção.
Segundo o agrônomo, há poucos registros históricos da cultura. O auge foi na década de 1970, quando um programa federal de incentivos fiscais para reflorestamento levou ao plantio de 150 hectares só em Anta Gorda. Depois disso as nogueiras caíram no esquecimento com a ascensão da soja e do milho. Em 2004, o IBGE calculou 1.445 hectares plantados no Brasil, sendo 1.124 no Rio Grande do Sul (incluída também) a área destinada a nozes européias, mais populares que a pecã.
O rendimento também é variável. Os pés "francos" (sem enxerto de mudas de árvores de melhor desempenho) levam oito anos para começar a produzir em pequenas quantidades. Os enxertados, ao contrário, começam a frutificar em três ou quatro anos, com produção inicial de três a dez quilos, alcançando 50 quilos aos oito a dez anos de idade. Há plantas que chegam a 200 quilos ou até 400 quilos de produção, como uma nogueira de 65 anos tratada como verdadeira estrela no meio das pastagens da propriedade de Valdir Riboldi.
Um hectare acomoda, com espaçamento adequado, até 100 árvores. Com produção de 50 quilos, isso representa cinco toneladas e - nos preços desta safra - mais de R$ 25 mil por hectare por ano, destaca Pitol. "E com pouquíssima despesa". São mais ou menos R$ 150 de adubo por hectare e a proteção contra pragas é obtida principalmente pelos cruzamentos de espécies, já que, exceto em plantações em larga escala, é difícil pulverizar defensivos em árvores de mais de 20 metros de altura sem afetar as culturas consorciadas.
O viveirista vendeu 30 mil mudas por ano em 2005 e 2006. No ano passado, 90% delas foram para produtores catarinenses e paranaenses e o restante para gaúchos. Agora a relação se inverteu e o Rio Grande do Sul ficou com 25 mil unidades. "Em 2007 vai chegar e 40 mil só no Estado e pode haver falta de mudas", reforça. Segundo ele, que neste ano produziu 4 toneladas na propriedade onde também cria gado leiteiro, a maior procura está associada à "decadência" dos preços da soja e do milho, afirma Pitol.
Um dos clientes do viveirista, o produtor Valdir Riboldi, tinha até o ano passado apenas três nogueiras que garantiram 600 quilos de nozes nesta safra. Neste ano ele plantou mais 17 pés "francos", que depois serão enxertados com mudas da campeã que produziu 400 quilos. Com uma propriedade de 17 hectares, ele cultiva pastagem ao redor das árvores, que ainda dão sombra para as vacas leiteiras (60 cabeças) durante o verão - quando estão no auge da floração - e usam o adubo orgânico produzido pelos próprios animais.
O comerciante aposentado João Carlos Stello é outro que apostou nas nogueiras para garantir uma renda superior à aposentadoria. Ele tem pomar há 20 anos, mas nos últimos cinco é que se dedicou exclusivamente à cultura. Em 2006 plantou mais 30 mudas, totalizando 300 árvores em três hectares. Cerca de 200 estão produzindo e renderam quatro toneladas neste ano. Somada às 20 toneladas compradas de outros produtores locais, a safra foi vendida para a
"A noz pecã é o que dá mais retorno hoje", diz o produtor Hermínio Lamperti. Dono de uma propriedade de 20 hectares no interior do município, ele também cultiva laranja, milho, erva-mate e araucárias. Tem 100 nogueiras em produção, que deram 5 toneladas neste ano e desde 2003 plantou mais 200 árvores.
Segundo o secretário da Agricultura de Anta Gorda, Vanildo Roman, a revitalização da cultura levou a prefeitura a implementar em 2006 um programa de incentivo ao plantio que garante a doação de dez mudas a cada 20 compradas pelos produtores. O trabalho inclui assistência técnica em parceria com a Emater-RS e a meta é beneficiar 50 proprietários por ano até 2010. Em 2008 o município pretende ainda reeditar a "Festa da Noz Pecã", realizada pela última vez em 1975.
Sérgio Bueno