Um pomar só de frutas raras (Estado de São Paulo)

17/08/2006

Um pomar só de frutas raras

Produtor de Monte Alegre do Sul (SP) cultiva e vende mais de 500 espécies, nativas e exóticas

A jabuticaba, fruta de cor negro-arroxeada, de polpa suculenta e saborosa, é uma velha conhecida e remete aos tempos de infância. Pouca gente sabe, no entanto, que há também uma jabuticaba que dá em cipó e outra cujos frutos têm cor branco-esverdeada e são comidos com a casca. É certo, ainda, que a pitanga é uma frutinha muito conhecida. Mas e a pitanga-tuba, nativa da restinga, quantos já a provaram? Tem também a acerola-de-cipó, mais doce do que a tradicional, e o jacaratiá, um pequeno mamão da mata atlântica.

Todas essas, e muitas outras frutas brasileiras pouco conhecidas, podem ser encontradas no pomar do Sítio Frutas Raras, em Campina do Monte Alegre, a 220 quilômetros de São Paulo. Ali, o produtor Helton Josué Teodoro Muniz, de 26 anos, formou uma das maiores coleções de frutas nativas e exóticas de que se tem notícia no Brasil.

DE HOBBY A NEGÓCIO
Aquilo que começou como uma espécie de hobby é, hoje, um bom negócio. Ele reproduz as plantas, forma as mudas e atende aos pedidos de todo o País. Acabou transformando o sítio num banco genético, onde se encontram espécies que estão em extinção. É o caso da melancia-do-cerrado, cujos frutos, muito semelhantes à melancia comercial, não ultrapassam o tamanho de uma laranja. "O cerrado brasileiro é pródigo em frutas, mas poucas são conhecidas e muitas estão ameaçadas por causa do avanço das lavouras sobre esse ecossistema."

O murici-rosa, frutinha de sabor forte, também é típico do cerrado, assim como o guamirim, que se parece com a pitanga apenas no sabor. A frutinha dá em um arbusto. A geniparana lembra o genipapo, mas é amarela. E tem a sapota-preta, fruta grande, com a polpa bem negra. E ainda a marmelada, diferente do marmelo, e cuja planta lembra o abacateiro. "A fruta já é a marmelada pronta", diz.

Muitas frutíferas são da mata atlântica e ele obteve as mudas a partir de sementes ou galhos. O bacupari-mirim tem o fruto do tamanho de um limão galego. Já o ingá-cipó dá frutos com até 1 metro de comprimento. A banana-de-macaco tem fruta parecida com um pequeno cacho de bananas.

SAPUTÁ
Muniz começou a se interessar pelas frutas raras quando se mudou da cidade de Angatuba (SP) para o sítio, com a família, em 1995, então com 15 anos. "Estava pescando no Rio Paranapanema quando observei uma planta com frutinhas que lembravam pequenas laranjas." Ficou sabendo, por outros pescadores, que a fruta, de nome saputá, era comestível. Provou os frutinhos e gostou. "Procurei no dicionário e descobri que era uma trepadeira. Decidi pegar sementes e fazer mudas."

Nas buscas, de barco, pelas margens do Paranapanema, ele foi descobrindo uma infinidade de frutíferas pouco conhecidas, como vários tipos de maracujás silvestres; pêras do campo; o guabuticuru, ou limão-do-mato; o ora-pro-nobis e até o pequi. "O ora-pro-nobis é uma trepadeira nativa, cactácea, chamada pelos índios de guaiapá, ou fruta que tem agulhas, pois a casca tem pequenos espinhos." É usado como planta ornamental, mas pouca gente sabe que os frutos são comestíveis.

Muniz foi juntando as plantas no sítio e, assim que conseguiu produzir as primeiras mudas, escreveu para jornais e revistas e começou um intercâmbio com outros produtores. "Comecei também a pesquisar, primeiro nos livros, depois na internet." Hoje, ele tem uma coleção de 50 livros sobre frutas de todo o mundo. No pomar do sítio, estão plantadas 800 mudas de 500 espécies de frutíferas.

José Maria Tomazela