Bahia na busca do mamão resistente à mancha anelar
Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, plantam há alguns anos, em caráter experimental, pés de mamão transgênico.
O objetivo, em resumo, é produzir variedades de mamoeiros resistentes ao vírus PRSV, responsável pela mancha anelar, doença sem cura para a planta e o fruto. Ela provoca manchas amarelas nas folhas e as enruga. Também, forma estrias no caule e cria manchas aneladas, que depois matam o fruta.
O novo mamoeiro desenvolvido pela Embrapa, em parceira com a Universidade de Cornell e a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília), tem proteínas preparadas para impedir a reprodução do material genético do vírus.
Os primeiros testes aconteceram nos Estados Unidos e, em 1999, as linhagens foram transferidas para o Brasil. As plantas estudadas são dupla ou triplamente resistentes ao vírus e preparadas para produzir sementes.
De fácil migração, a mancha atualmente só pode ser controlada, diretamente, em campo, por observação.
Junto com a meleira, outra doença, a mancha anelar é uma das que mais afetam o mamão.
Sua transmissão ocorre por meio de insetos afídeos (pulgões). “Essas marcas são grandes barreiras para a exportação do produto”, explica Alberto Duarte Vilarinhos, pesquisador da área de biologia molecular.
Acrescenta que as perdas na lavoura chegam a 30% e que, quando a mancha é identificada, é necessário eliminar as plantas infectadas. Se isso não for feito, todo o plantio pode ficar comprometido, alerta.
A perspectiva é que, com o mamão transgênico, as perdas diminuam e áreas que já foram utilizadas para a o cultivo sejam recuperadas.
Os plantadores migram para fugir da mancha anelar. Atualmente, a região do sul da Bahia e do norte do Espírito Santo é o maior centro nacional do mamão, com 80% da produção.
Para conseguir a característica semelhante à imunidade no corpo humano, os pesquisadores do mamão transgênico retiraram a cápsula de proteína que envolve o material genético do vírus PRSV. Em seguida, utilizaram um vetor, que levou o material até o genoma do mamoeiro.
A tecnologia é originária da universidade norte-americana. Lá, o pesquisador Manoel Teixeira Souza Júnior fez seu doutorado em melhoramento de plantas e aprofundou o conhecimento sobre as técnicas que vinham sendo utilizadas na Tailândia e no Havaí, grandes produtores do mamão que também sofriam com a mancha anelar, mas de linhagens diferentes.
Pesquisadores de diversas áreas estão envolvidos na atual fase do projeto, desde os da área de tecnologia de alimentos, que analisam o sabor do mamão, até os da mibrobiologia do solo, genética de melhoramento e biologia molecular. Ao todo, sete centros da Embrapa compõem os trabalhos de pesquisa.
Segundo ele, a postura da Embrapa é estudar se o novo mamão faz bem ou não à população. “As pessoas têm medo que aconteça uma mutação no vírus, mas é um medo do que ainda não se conhece. Nosso papel é trabalhar com todo o cuidado do mundo. Quando for liberado, se saberá, com toda a certeza, as conseqüências do transgênico”, garante.
As primeiras mudas do mamoeiro foram plantadas na sede da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, em Cruz das Almas, após liberação do Conselho Nacional de Biossegurança.
A área é de acesso restrito – cercada e com guarita de segurança.
Segundo os pesquisadores, a partir de quatro anos, as primeiras mudas devem estar no mercado.