Praticidade guia pesquisas que 'reinventam' o abacaxi

13/05/2011

Praticidade guia pesquisas que 'reinventam' o abacaxi





Que tal um abacaxi doce, suculento, de casca vermelha, totalmente comestível, da casca à polpa, que não precisa ser descascado e que, ainda por cima, tem propriedades antioxidantes e antihipertensivas? É o que promete colocar no mercado o botânico fluminense Pedro Nahoum, 39, pesquisador da fruta desde 1992.

Desenvolvido em viveiros em Maricá, região metropolitana do Rio de Janeiro, o fruto deverá chegar às mesas em 2013 com a promessa de revolucionar o consumo da fruta - reconhecidamente uma das mais saborosas entre as tropicais, mas que, espinhosa da planta à casca, carrega o estigma de simbolizar uma coisa difícil de lidar.

Nahoum não é o primeiro que se propõe a acabar com o sentido da famosa expressão "descascar o abacaxi". No fim da década de 1990 o respeitado Instituto Agronômico de Campinas (IAC) colocou no mercado o abacaxi Gomo de Mel, variedade oriunda da China de sabor muito doce e que também tem entre suas características o fato de ter os frutilhos, ou "olhos", menos soldados entre si, o que permite comê-los destacando-os com as mãos.

Com baixa resistência à principal praga do abacaxi, a fusariose, doença provocada pelo fungo Fusarium, e com elevado percentual de frutos pequenos nas lavouras, o Gomo de Mel, depois de causar alvoroço ao ser lançado, segundo os pesquisadores do IAC Ademar Spironello e José Emilio Betriol Neto, "foi perdendo o interesse por parte dos produtores".

Eles ressaltam que hoje "é possível encontrar plantios comerciais modestos em algumas regiões, que atendem a nichos específicos de mercado". Agora o IAC aposta em outra variedade, lançada em 2010 e batizada de IAC Fantástico. Não tem gomos que se soltam nas mãos, mas é resistente à fusariose, tem folhas sem espinho e brix (indicador do grau de doçura) superior a 16 graus.

Uma fruta resistente à fusariose e que atinge até dois quilos de peso é o que Nahoum pretende colocar no mercado a partir de um plantio inicial de 1 milhão de pés em uma área de 25 hectares do município de Quissamã, no norte do Rio, que deverá ser feito no próximo ano para colheita em 2013. A substância com propriedades terapêuticas contida na casca vermelha é a Pinotina A, a mesma presente nas uvas, de acordo com o "pesquisador-empresário".

A cidade de Quissamã, famosa por ser uma das principais beneficiárias dos royalties do petróleo, tem terras arenosas próprias para o cultivo do abacaxi, fruta que fez sua fama na década de 1970.

O Valor visitou as estufas da Botanica Pop, empresa de Nahoum, em Maricá, mas as mudas do "Cesar", nome com que o botânico batizou o abacaxi vermelho em homenagem ao seu pai, estavam pequenas. "O normal do abacaxi é florescer a partir de agosto e ser colhido a partir de novembro". Ele disse que até fevereiro foi possível saborear os frutos da florada de 2010.

O botânico afirma que testou a variedade Cesar e outra com características semelhantes, a David (homenagem a um amigo), desde 1999. Ele contratou o laboratório internacional SBW, um dos maiores produtores de mudas do mundo, para produzir as mudas a partir das suas matrizes. Hoje ele tem 10 mil mudas e sua meta é ter em pouco tempo 5 milhões delas e 800 matrizes para plantio próprio e venda ao mercado.

Em parceria com o escritório de arquitetura carioca Índio da Costa A.U.D.T, o pesquisador está desenvolvendo uma embalagem especial para o abacaxi com a qual pretende aproveitar os eventos da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 para enraizar o produto nos mercados interno e externo. Nahoum conta que já iniciou com o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) as tratativas para construir a identificação geográfica do "abacaxi do Rio de Janeiro".

Segundo Nahoum, contam a seu favor nesse processo os fatos de o abacaxi ser uma planta nativa da Mata Atlântica do Rio de Janeiro e de Quissamã, onde será feito o primeiro plantio comercial, já apresentar um histórico positivo da fruta.

O projeto de Nahoum, que também pesquisa e vende plantas ornamentais, especialmente cactus de diversas origens, conta com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a agência do governo federal voltada para o financiamento à pesquisa e inovação. Com os recursos de um dos dois projetos de subvenção já aprovados pela agência, ele montou em Maricá três estufas, com área total de 8,5 mil metros quadrados, e pretende concluir a montagem de um laboratório no segundo semestre.

O botânico está empenhado em várias pesquisas simultâneas. Uma delas, também de potencial revolucionário, pretende criar um híbrido de mandacaru e xique-xique, os dois cactus mais populares do Semiárido do Nordeste. A ideia é criar uma variedade resistente a pragas e sem espinhos no caule. Como o cactus é basicamente água, a nova variedade seria uma alternativa para alimentar o gado nos períodos de seca, substituindo a palma forrageira, que sofre o ataque implacável da praga chamada cochonilha do carmim. Ironicamente, o carmim é um pigmento vermelho de larga aplicação nas indústrias de alimentos e de cosméticos. E ele é extraído do organismo da cochonilha, inseto de origem mexicana que suga a seiva da palma, fazendo-a amarelar e murchar.

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