Sem poder vender à UE, Frigoclass paralisa operação
O Frigoclass, de Promissão (SP), suspendeu por tempo indeterminado suas operações. O frigorífico, adquirido em janeiro do ano passado pelo empresário britânico Terry Johnson, paralisou os abates este mês porque a operação ficou inviável em função do embargo europeu à carne bovina de São Paulo, apurou o Valor. Quando adquiriu a planta, o foco de Johnson era a exportação, basicamente para a União Européia (UE).
O embargo da UE à carne de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, foi imposto em outubro do ano passado após o surgimento de focos de febre aftosa neste último Estado. A medida levou o Frigoclass a adiar o abate de animais, que começaria em outubro, para fevereiro deste ano. A unidade, com capacidade de 1.000 animais por dia, chegou a abater 400 bois diariamente. A carne estava sendo exportada só para o Oriente Médio e era vendida no mercado interno.
Mas a manutenção do embargo pela UE, após a visita de uma missão de veterinários do bloco ao Brasil em julho para inspecionar os controles da doença no país, levou o empresário a decidir pela paralisação da unidade. Segundo apurou o Valor, dos 280 funcionários que estavam trabalhando em Promissão, restaram apenas 25. A reportagem não conseguiu contactar Johnson, que está nos EUA.
Impossibilitado de exportar à UE, ficou inviável para o Frigoclass trabalhar apenas com o mercado interno. Além disso, não há perspectivas de que o bloco europeu reabra seu mercado para as exportações de carne bovina dos três Estados brasileiros ainda este ano, um dos motivos que precipitou a suspensão das operações do Frigoclass.
A decisão do britânico de paralisar o frigorífico que operou por apenas seis meses indica, pelo menos por ora, um fracasso na primeira experiência de investidores estrangeiros na área de carne bovina no Brasil após longos anos.
O ressurgimento da aftosa no país contribuiu para a experiência malsucedida do Frigoclass, mas analistas apontam um erro na estratégia do empresário britânico. Jonhson sempre fez questão de dizer que o frigorífico em Promissão teria o padrão de plantas européias, "premium" e investiu um grande volume de recursos para atingir esse objetivo.
Segundo o Valor apurou, foram US$ 35 milhões investidos na compra da unidade e numa grande reforma. O valor seria suficiente para construir duas plantas padrão de abate, de acordo com uma fonte do setor.
Fontes que tiveram contato próximo com o empresário admitem que o projeto foi ambicioso demais e que o ressurgimento da aftosa, que pôs em xeque a situação da sanidade animal no Brasil, foi um "balde de água fria".
Um especialista desse mercado avalia que Terry Jonhson foi "pretensioso" em sua estratégia de investimento e que, para começar, deveria ter se associado, no Brasil, a uma empresa que já tivesse conhecimento do setor no país . Segundo esse especialista, o empresário deveria também ter começado exportando para "terceiros mercados", de preços mais baixos, mas menos exigentes que a UE.
Em junho passado, o Frigoclass pediu uma autorização especial ao comitê de veterinários da UE, em Bruxelas, para que pudesse exportar carne bovina ao bloco. O argumento era de que o frigorífico tinha como garantir o controle total da produção e de que não haveria risco de animais infectados com aftosa serem abatidos. A UE ainda não respondeu à solicitação.
No atual quadro, apurou o Valor, não há definição sobre os projetos do Frigoclass de construir duas plantas no Rio Grande do Sul.
Alda do Amaral Rocha