'Guerra da farinha' opõe Brasil e Argentina

23/08/2006

'Guerra da farinha' opõe Brasil e Argentina

Vizinhos reclamam de restrições alfandegárias ilegais

O governo do presidente da Argentina, Néstor Kirchner, tentará convencer o governo brasileiro a suspender as barreiras aplicadas à entrada de farinha argentina. O pedido será realizado pelo secretário de Indústria e Comércio da Argentina, Miguel Peirano, que estará em Brasília na quinta-feira para reunir-se com autoridades brasileiras.

Segundo a Federação Argentina da Indústria de Moinhos de Farinha (Faima), desde a primeira semana deste mês os caminhões com carregamentos de farinha argentina devem passar pelo "canal vermelho" nas alfândegas brasileiras.

O "canal", segundo os argentinos, consiste em "uma clara barreira para-alfandegária", pois implica um processo de extração de amostras e a realização de exames em laboratórios. Mas, segundo a Faima, este processo causa demoras de 10 a 15 dias. A conseqüência é a elevação dos custos e o desestímulo dos importadores brasileiros.

A Faima diz que as barreiras brasileiras podem implicar perdas de US$ 50 milhões para os argentinos. O Brasil comprou no ano passado o equivalente a 60% das exportações argentinas de farinha, que totalizaram 8,7 milhões de toneladas.

Os empresários argentinos alegam que a determinação brasileira viola o Certificado de Reconhecimento Mútuo, que estabelece que os governos do Brasil e da Argentina reconhecem ambas verificações bromatológicas, tornando desnecessárias novas fiscalizações.

Segundo a Faima, o comércio de farinha argentina para o Brasil "está totalmente paralisado desde a semana passada". Segundo o presidente da Faima, Alberto España, as vendas argentinas de farinha com pré-mistura representam somente 2,7% do mercado consumidor brasileiro. "Por este motivo, as medidas brasileiras não têm razão alguma de ser. Trata-se apenas uma manobra para aumentar o preço do produto", acusa.

O conflito da farinha é o primeiro sinal de turbulência entre o Brasil e a Argentina desde o início do ano. Na ocasião, os dois governos chegaram à paz, após sete anos de constantes conflitos comerciais (intensificados com a desvalorização do real em 1999 e agravados em 2004, com a chamada "Guerra das Geladeiras").

Ariel Palacios