Para reduzir socorro a produtor, governo vai estimular hedge (Valor Econômico)

24/08/2006

Para reduzir socorro a produtor, governo vai estimular hedge


Desgastado pelo recente processo de renegociações das dívidas rurais, o governo decidiu ampliar os incentivos para massificar o uso da proteção contra flutuações de preços (hedge) em mercados futuros para o setor rural. O Conselho Monetário Nacional (CMN) deve aprovar, nos próximos dias, uma linha de crédito que financiará os custos de ingresso e de manutenção dos produtores nesse mercado a juros subsidiados de 8,75% ao ano pelo Tesouro Nacional.

A medida servirá para superar gradualmente a política de socorro emergencial ao campo em épocas de crise, que custará R$ 20 bilhões aos cofres públicos nos próximos dez anos. E também ampliará a proteção da carteira de crédito rural do Banco do Brasil contra eventuais calotes via mitigação de riscos das operações do setor.

O plano federal para a atual safra 2006/2007 já prevê um adicional de até 15% sobre o limite de crédito individual para quem utiliza mecanismos de proteção de preços. Mas o governo quer ter a certeza de que o produtor usará esse "prêmio" para custear taxas, emolumentos e ajustes diários exigidos nos mercados futuros e não como capital de giro.

Por isso, o crédito adicional será liberado numa conta privativa específica para garantir as margens de garantia. Para evitar perdas, a conta será ligada a um fundo de investimentos, remunerado com base num percentual da taxa de juros interbancária (CDI). O que não for usado para os ajustes na bolsa, volta para a conta.

A estratégia do governo busca integrar os produtores aos mercados mais modernos de comercialização das safras e proteção de renda. E baratear o acesso à proteção. Hoje, o hedge está restrito a alguns grandes produtores, cooperativas e agroindústrias, além de frigoríficos e confinadores de gado bovino.

Para comprar um contrato de opção de venda futura o produtor paga entre 4% e 7% por lote do produto. E a cada transação em bolsa desembolsa 0,68% como tarifa de entrada e saída, além de ter que bancar os ajustes de acordo com as oscilações diárias de cada produto.

Principal financiador bancário da atividade rural no país, o Banco do Brasil se prepara para ampliar sua participação no mercado de futuros agropecuários. No início deste mês, o conselho diretor aprovou a entrada do BB no mercado de lançamento de contratos de opção referenciadas em futuros.

Hoje, o BB atua nas bolsas de futuros por meio de corretoras. Com as opções, passará a travar os preços futuros do algodão, milho, soja, café e boi gordo ao conceder o crédito de custeio em suas próprias agências. O BB estima elevar de 12 mil para 25 mil as operações de futuros neste ano, com um volume superior a R$ 700 milhões. "A mudança será gradativa, mas evitará mudanças bruscas de rentabilidade, onde o produtor ganha 100% numa safra e perde 50% na outra", diz o diretor de Agronegócio do BB, Derci Alcântara. "Vamos lançar as opções e travar os preços nas bolsas daqui ou do exterior".

O novo serviço seguirá as regras dos contratos de opção privada de pagar a diferença entre o preço fixado e cotação do dia do produto. Não haverá transação em mercadorias. Hoje, apenas o Ministério da Agricultura oferece a proteção. Por limitações orçamentárias, têm alcance um reduzido e localizado.

A aposta do BB no hedge rural via mercados futuros é alta. O banco já treinou 800 funcionários na área e iniciará na próxima semana uma licitação para comprar um software (roteador de ordens) que oferecerá os serviços diretamente ao produtor via internet. A novidade só estará disponível na próxima safra 2007/2008. "Quem fixou preço da soja no fim de 2005, por exemplo, garantiu rentabilidade de 30% agora em maio ou junho deste ano. Isso é o que dizemos sempre aos produtores", diz o gerente executivo de Agronegócios do BB, Rogério Pio Teixeira.

De olho no potencial do mercado, a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) se prepara para ampliar a liquidez dos contratos lastreados em produtos agropecuários. "Isso soa como música. A linha de crédito somada à capilaridade do Banco do Brasil vai dar mais liquidez ao mercado e abrirá para outras instituições", avalia o diretor de Derivativos Agropecuários e Energia, Félix Schouchana. A bolsa negocia hoje cerca de 1 milhão de contratos diários, dos quais apenas 6 mil são agropecuários. "Não será a panacéia do setor, mas uma importante vacina contra variações bruscas de preços".

Mauro Zanatta