Aumenta venda interna de café, mesmo com dumping (A Tarde)

28/08/2006

Aumenta venda interna de café, mesmo com dumping

 

O principal destino do café torrado e moído brasileiro é o mercado externo, que absorve 23 milhões de sacas (uma saca pesa 60 kg). Mas o consumo interno tem demonstrado crescimento considerável: chegou a 15,95 milhões de sacas entre abril de 2005 e o mesmo mês deste ano. Os dados são mais relevantes quando comparados com os índices internacionais.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a cifra do crescimento nacional correspondeu a um aumento de 2,93% em relação ao mesmo período do comparativo 2004 e 2005 – o mundial está em 1,5% ao ano. O Brasil é o maior produtor e exportador, mas perde para os Estados Unidos em consumo.

O presidente da Abic, Nathan Herszkowicz, atribui o incremento no consumo ao aumento do poder de compra da população, à melhoria na qualidade do produto e ao estímulo à diversificação dos cafés.

Campanhas de marketing e publicidade, com investimentos da ordem de R$ 650 mil, foram também apresentados pelo presidente da Abic como trunfos para o aumento do consumo.

A Abic divulgou também que o consumo per capita cresceu 2,7%, atingindo 4,22 kg de café em pó torrado e moído por habitante por ano. Até 2010, a indústria do café prevê uma elevação no consumo interno para 21 milhões de sacas.

A Bahia tem uma área de 97.175 hectares produzindo café e fica em quinto lugar no ranking nacional.

Lidera em produtividade, com a soma de 22,38 sacas por hectare, um pouco à frente do Paraná, que tem o índice de 21,78. A previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de uma safra de 40,62 milhões de sacas de café para 2006/2007. Dessas, 31,02 milhões de sacas do café arábica e 9,60 milhões do robusta.

Roberto Almeida, um dos vicepresidentes do Sindicato das Indústrias de Café do Estado da Bahia (Sincafé), explica que o aumento no consumo se deve também ao crescimento populacional e maior penetração do produto entre a classe A.

NEGÓCIO DESLEAL – Nas classes de menor poder aquisitivo, acrescenta, onde estão os consumidoras de peso, os baixos preços têm contribuído para o incremento nas vendas. Segundo Roberto Almeida, também economista e diretor de uma indústria de torrefação no município de Serrinha, interior da Bahia, grandes empresas têm praticado o dumping, estratégia de negociação em que alternam, entre si, a venda de produtos com preços abaixo do custo.

Roberto Almeida alerta para a queda na qualidade do café baiano, por conta da acirrada concorrência com as marcas de fora. “O mercado está caminhando para a utilização de grãos de baixa qualidade e maior adição de grãos pretos, verdes e ardidos. Não tem como vender barato sem utilizar esse tipo de café”, confessa.

O diretor do Sincafé reclama do governo maior fiscalização quanto aos impostos e tributos estaduais sobre as empresas de fora, e pede mais linhas de crédito específicas para as indústrias localizadas na Bahia, “a fim de que elas disputem o mercado de uma forma mais justa”, completa. O empresário fala ainda que existe a falsa impressão de que a indústria de torrefação tem taxa de lucro elevada.

O presidente do Sincafé, Rutenberg Campos, acrescenta que a concorrência desleal levou algumas indústrias a fecharem as portas em Salvador ou serem vendidas para grupos de fora do Estado. "O Café América foi vendido para o Café Damasco, quinto maior do Brasil, enquanto que o Rio Branco e o Kentinho fecharam. Em Feira de Santana, o Ponto Bom também fechou, informa a Abic.

Cerca de 120 empresas de torrefação são filiadas ao Sincafé. A entidade não possui dados exatos nem estimativa da produção da indústria do café no Estado.

JAIR FERNANDES DE MELO