Esgoto doméstico dá bom adubo
Sistema desenvolvido pela Embrapa, simples e barato, reduz poluição e produz fertilizante
Há seis anos, a Embrapa Instrumentação Agropecuária, de São Carlos (SP), desenvolveu um projeto que vem obtendo sucesso em áreas rurais carentes de sistemas eficientes de saneamento básico. Chamado de fossa séptica biodigestora, o sistema, que canaliza o esgoto diretamente de vasos sanitários, substitui fossas rudimentares (buracos e fossas negras), que, embora construídas em áreas distantes das residências, contaminam solos, águas subterrâneas e lençóis freáticos, comprometendo a saúde dos moradores do local. A falta de saneamento básico na zona rural afeta 90% da população do campo, calcula o pesquisador Antonio Pereira de Novaes, da Embrapa.
Novaes explica que o sistema, formado por três caixas d’água e conectadas entre si por tubos e conexões de PVC, utiliza esterco bovino para fermentar o resíduo que sai dos vasos sanitários. “O esterco de ruminantes contém uma flora riquíssima, e digere e transforma toda a sobra de excrementos”, diz Novaes. “Na primeira caixa, 70% das bactérias são eliminadas; na segunda, o processo continua; na terceira, o material está livre de bactérias e micróbios responsáveis por doenças como hepatite e já pode ser usado como adubo”, garante.
FILTRO DE AREIA
Caso o efluente não seja aproveitado como adubo, pode-se montar na terceira caixa um filtro de areia, que reterá o excesso de matéria orgânica e permitirá a saída apenas da água. Essa água pode ser descartada, pois não é mais poluente, ou usada para irrigação. Outra opção é a fertiirrigação. As caixas são enterradas no solo e vedadas com borracha, para que não haja entrada de ar. Ao fim do processo fermentativo, que dura 30 dias, não há mais coliformes fecais. O processo, por se dar em ausência de ar, não gera mau cheiro. “Ocorre a fermentação anaeróbica, que é a decomposição sem o contato com o ar.”
CUSTO
Segundo Novaes, uma fossa biodigestora simples, com três caixas com capacidade de mil litros cada, pode economizar até 4.500 quilos de fertilizantes por ano. Seu custo médio, calcula, é de R$ 1 mil, incluindo material e mão-de-obra.
“A única manutenção é pôr, regularmente, a mistura de esterco bovino fresco com água na primeira caixa”, afirma, acrescentando que a fossa só deve receber resíduos de vasos sanitários, e nunca de pias e de chuveiros. “Água de pia e chuveiro não tem potencial patogênico e produtos como sabão e detergente inibem o processo de biodigestão.” Uma família de cinco pessoas, por exemplo, gera, segundo o pesquisador, cerca de 50 litros de água/resíduos por dia; em um mês, 1.500 litros são jogados na fossa.
TESTE
Em São Carlos, o adubo proveniente de uma fossa biodigestora foi testado em uma área com 2.500 pés de goiaba; deste total, 250 pés não receberam o adubo orgânico. “Resultados parciais mostraram que os pés não adubados apresentaram deficiência de potássio, que acabou afetando as folhas, deixando as bordas ressecadas e com coloração arroxeada intensa”, diz o engenheiro agrônomo Lourenço Cherman Salles. A fossa que abastece a plantação de goiabas produz, por mês, de 6 mil a 8 mil litros de adubo. “A aplicação é experimental, mas a qualidade do adubo já foi comprovada pela Embrapa, além de ser um fertilizante gratuito”, observa Salles. Novaes conta que o adubo já está sendo usado, em todo o País, em plantios de frutas, hortaliças, flores, cultivos em estufas, café e noz macadâmia. “Há até quem comercialize o fertilizante”, conta.
(SERVIÇO)SAIBA MAIS:
Embrapa, site: www.cnpdia.embrapa.br
Fernanda Yoneya