Rolagem de dívidas dos produtores junto a setor privado supera R$ 6 bi
Os agricultores iniciarão a safra 2006/07 com uma dívida adquirida junto às indústrias de insumos superior a R$ 6 bilhões, de acordo com estudo inédito realizado pela Agroconsult a pedido das Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). O cálculo é baseado nas dívidas contraídas junto às indústrias de fertilizantes, defensivos, sementes, tradings e indústrias de alimentos durante os ciclos 2004/05 e 2005/06 e que não foram renegociadas pelos produtores.
O maior volume de dívidas está concentrado no setor de defensivos e soma R$ 3,604 bilhões. O valor equivale a aproximadamente 40% da receita total do setor no ano-safra. André Pessoa, analista da Agroconsult, observou que a somatória é alta porque, tradicionalmente, as indústrias de agroquímicos vendem no chamado prazo-safra - o pagamento é feito após a colheita, podendo demorar até 180 dias desde a entrega dos defensivos.
No caso das indústrias de adubos, a dívida contraída na safra 2005/06 é de R$ 1 bilhão. Eduardo Daher, diretor-executivo da Anda, disse que não há estatística fechada sobre o nível de inadimplência do ciclo 2004/05, mas estima que o valor tenha ficado entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão.
As dívidas junto às indústrias de sementes estão estimadas em R$ 370 milhões, valor correspondente a 10% do total comercializado pelas indústrias no ano-safra. Pessoa, da Agroconsult, observou que a situação dessas indústrias de insumos é menos problemática, porque elas estipulam prazos de pagamento mais curtos - de até 60 dias - e, por isso, comprometem menos capital de giro ao financiar a venda aos produtores.
Ainda conforme o estudo, as dívidas não pagas contraídas junto a tradings e indústrias, que financiam a compra de insumos em troca da entrega de grãos para exportação ou processamento, são estimadas em R$ 1,104 bilhão.
Esses valores, observou Pessoa, não levam em conta as dívidas que os produtores contraíram junto aos bancos para financiamento de custeio de safra e que já venceram ou vencem este ano. As dívidas de custeio - cujo alongamento será avaliado pelos bancos até 30 de setembro - estão estimadas em R$ 6,74 bilhões. Esse montante não inclui créditos de financiamento como Moderfrota, os Fundos Constitucionais, Pesa e securitização. Ao todo, a dívida acumulada junto às indústrias e aos bancos soma R$ 12,7 bilhões e é considerada a maior da história.
Conforme o levantamento, a pior situação é observada no Mato Grosso. Sozinhos, os produtores deste Estado respondem por 34% das dívidas junto ao setor privado, num total de R$ 2,082 bilhões. Em seguida, os maiores devedores são Goiás (13%), Rio Grande do Sul (13%), Paraná (10%), Mato Grosso do Sul (9%) e Bahia (7%).
Pessoa observou que o endividamento deveu-se à quebra de safra no Sul do país, ao avanço da ferrugem da soja no Centro-Oeste e ao aumento nos custos com fretes. A cultura mais prejudicada é a soja, com R$ 4,253 bilhões em dívidas, ou 70% do saldo total. A segunda maior dívida é dos produtores de algodão, de R$ 755 milhões, seguidos por milho (R$ 523 milhões) e trigo (R$ 179 milhões).
Pessoa disse que o alto nível de endividamento junto ao setor privado compromete a disponibilidade de crédito para a safra. Ele estima que haverá redução no uso de insumos. Ele também prevê redução na área plantada com grãos.
Cibelle Bouças