Depois do exterior, Tribal estréia no varejo
Eles são adeptos da vida simples, do cultivo do solo e da harmonia com a natureza e os seus semelhantes. Mas quando se trata de negócios, mostram um planejamento estratégico de quem ambiciona ser grande. Após seis anos voltada para o comércio externo, a Tribal Brasil Organics, uma pequena "comunidade-empresa" sediada em Curitiba, prepara-se para vender seus produtos orgânicos no mercado brasileiro.
Até o fim do mês, a Tribal colocará nas gôndolas de São Paulo um de seus itens mais conhecidos no exterior, a erva-mate orgânica. O contrato de exclusividade de lançamento foi fechado semana passada com o Pão de Açúcar. Para outubro estão previstas entregas ao Mambo, em São Paulo, e ao Sonae, no Sul do país. A Tribal também negocia com um grupo carioca.
"A resposta foi incrível", diz Yadutan Naftali, proprietário da empresa. "Sempre trabalhamos com o consumidor lá fora. Não imaginava que havia mercado no Brasil".
A Tribal é uma das empresas que optaram por investir em alimentos orgânicos apesar da falta de regulamentação no Brasil, que tem inibido aportes maiores no setor. Mas esse é o único ponto em comum com as concorrentes. Ao contrário das outros, ela nasceu pensando exclusivamente no mercado externo - sobretudo nos EUA, país com alto consumo de chás e grande aceitação a produtos orgânicos. Além da erva-mate, cuja produção de até 100 toneladas por mês lidera o portfólio de ofertas, a Tribal exporta açúcar mascavo, sal marinho não refinado e mel orgânicos.
Outra peculiaridade é que a Tribal faz parte de um movimento internacional que compartilha uma ideologia - o desejo de "restaurar a antiga vida que a maioria das culturas perdeu com o desenvolver das conveniências modernas", segundo o site da empresa, que tem menus em inglês e japonês. A cultura agrícola orgânica está diretamente ligada a esse estilo de vida.
São 36 "comunidades" que se ajudam mutuamente. Espalhadas por nove países (EUA, Canadá, Austrália, Argentina, Brasil, Reino Unido, Alemanha, França e Espanha, com cerca de três mil membros), elas fazem a ponte com o varejo local para angariar mercados. "Temos um relacionamento de comércio e amizade com outros grupos lá fora", explica Yadutan. "Somos como uma cooperativa."
Essa ramificação é crucial para a facilitação da entrada dos produtos brasileiros no mercado externo. A empresa paranaense exporta para empresas administradas pelas comunidades da costa leste dos EUA, que por sua vez garantem a penetração no varejo americano. O esquema tem funcionado: a Tribal Brasil já vende sua erva-mate à Whole Foods, maior varejista americana de produtos orgânicos.
Toda a estratégia de marketing é coordenada com as demais comunidades. Nos últimos seis meses, um representante americano viveu com o grupo em Curitiba para trabalhar na modernização de layouts e embalagens. Eles também dividem experiências de distribuição e elaboração de preços. Criada em 1996, a Tribal Brasil enviou seu primeiro contâiner aos EUA em 1999. O país é seu maior cliente - quase 80% da produção. Segundo Yadutan, o volume embarcado àquele país cresce desde 2001. Na Europa, a evolução é mais lenta. A Tribal começou os embarques para Alemanha e França em 2003, mas diz que o mercado europeu, diferentemente do americano, não ainda está consolidado.
A decisão de voltar-se para o Brasil se deveu ao câmbio, que reduziu as vantagens de exportação. Desde 2005, com o real valorizado, a Tribal começou a desenvolver pesquisas de mercado para atender a um consumidor que ainda prioriza o café e bebe pouco chá.
A empresa aposta em uma linha de chás orgânicos frescos, e não tostados como oferecem muitos outros. . "Passamos o ano investindo en máquinas e infra-estrutura. Nosso momento mais pesado é agora", diz Yadutan, que preferiu não revelar números.
A participação nas feiras internacionais de orgânicos também é vital para os negócios. A Tribal Brasil participa de todas. Recentemente entrou para o guarda-chuva da BrasilOrganics, associação ligada à Apex (Agência de Promoção das Exportações) que reúne produtos brasileiros orgânicos.
Bettina Barros