Fiesp: abertura na indústria, só com abertura agrícola
Peter Mandelson, da UE, ouve de industriais paulistas que não há diferença entre os dois setores no Brasil
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) está disposta a uma abertura comercial mais ambiciosa na área industrial, mas apenas se os países industrializados admitirem oferecer cortes de tarifas de importação na área agrícola. O recado foi dado ontem pela Fiesp ao representante comercial da União Européia, Peter Mandelson, que esteve em São Paulo, após participar da reunião do G-20 (grupo de nações em desenvolvimento) no Rio de Janeiro no fim de semana.
“Os países industrializados querem nos convencer a fazer concessões em indústria e serviços independentemente do resultado da negociação na área agrícola”, disse o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Carlos Cavalcanti. “No encontro na Fiesp, Mandelson aprendeu que não existe divisão entre indústria e agricultura no Brasil.”
Na Fiesp, Mandelson disse que o interesse da UE é de que o Brasil reduza suas tarifas de importação para o que, no jargão das negociações comerciais, foi apelidado de Suíça 15. Isso significa tarifa média de 9,8% para produtos industrializados, com uma máxima de 10,5%. Hoje a média brasileira é de 10,5%, com uma máxima de 35% em dois produtos (calçados e automóveis de passeio). A proposta oficial brasileira é a Suíça 30, que corresponde a uma tarifa média de 14,68% e a uma máxima de 16,15%. Cavalcanti não disse quanto a indústria poderia ceder mas, segundo especialistas, dificilmente o País chegaria ao coeficiente Suíça 15 sugerido por Mandelson.
Com o impasse nas negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), os países desenvolvidos cobram maior abertura dos países em desenvolvimento nos setores industrial e de serviços. Ontem, a Fiesp aproveitou para deixar claro a Mandelson que não existe diferença entre os setores agrícola e industrial no Brasil. “Mais de dois terços do saldo comercial brasileiro no setor agrícola representam produtos industrializados. Exportamos carne e não boi”, disse Cavalcanti.
Mais tarde, em palestra na Fundação Armando Álvares Penteado, Mandelson voltou a insistir que o Brasil deveria fazer uma maior abertura comercial. “Acredito que a economia brasileira poderia absorver uma liberalização real mais profunda.”
Mandelson classificou o papel do G-20 como indispensável ao progresso das negociações multilaterais. “Mas a negociação não é livre de obstáculos. E Celso Amorim (ministro das Relações Exteriores) não tem tornado a minha vida exatamente fácil.”
Mariana Barbosa