Pequeno lucra com milho orgânico (Estado de São Paulo)

14/09/2006

Pequeno lucra com milho orgânico

Seja para alimentação animal ou humana, plantio sem químicos é a maneira de se diferenciar

Um mercado com grande potencial, mas ainda incipiente. É assim que a maior parte dos agricultores e criadores envolvidos com a produção de milho orgânico vêem essa cultura. Atualmente, porém, quem se dispõe a cultivar milho de acordo com as normas da produção orgânica não reclama de prejuízos, nem de falta de mercado.

O milho em grão, maduro e próprio para alimentação animal, é vendido por preço 20% a 30% maior do que o preço do milho convencional e, o milho verde, em espigas e voltado à alimentação humana, é vendido por até por 40% a mais do que o convencional, embora a exigência de mão-de-obra para ambos os cultivos seja maior, elevando o custo de produção.

O grande potencial 'adormecido' da cultura está principalmente no mercado de milho maduro, em grão, que serve de alimento a aves, suínos e gado leiteiro. Com a tendência global de valorização e aumento do consumo dos produtos orgânicos, há grande chance de que aumente, por tabela, o interesse também pelo cultivo de milho orgânico.

PARA PEQUENOS

Recentemente, durante o 26º Congresso Nacional de Milho e Sorgo, promovido no fim de agosto pela Embrapa Milho e Sorgo, em Belo Horizonte (MG), discutiu-se a potencialidade de produção de milho orgânico. Segundo o pesquisador José Carlos Cruz, 'o milho, seja ele orgânico ou não, é uma cultura típica e adequada para a pequena propriedade, pela rusticidade e facilidade de manejo.'

O produtor de milho verde e milho em grão Luis Barrichello, de Jaguariúna (SP), concorda: 'É uma cultura rústica.' Ele planta, todos os anos, há quatro anos, 27 hectares de milho em grão. 'A conversão da área para orgânica não foi complicada', continua ele, cuja produção é certificada pela AAOCert. 'A produtividade também é igual à do milho convencional.'

A safra deste ano, que deve render 50 toneladas, já está toda vendida, e como orgânica. 'Às vezes não conseguimos mercado e temos de vender o milho como convencional.' Este ano, teve lucro. 'É assim: se o preço do milho comum está bom, o do milho orgânico também está.' Daí a necessidade, diz Barrichello, de plantar milho onde haja compradores próximos. 'Se não, o frete come o lucro.'

A gerente da Fazenda Ambiental Fortaleza, Cláudia Meirelles Davis, de Mococa (SP), também optou pelo milho, pela rusticidade. Na fazenda, totalmente orgânica, certificada pelo IBD, a atividade principal é café. O milho orgânico em grão, para alimentação animal, ocupa uma área plana, de 30 hectares, própria para grãos. 'Optamos pelo milho, que não requer tratos culturais muito sofisticados', diz Cláudia, acrescentando que, se o pequeno agricultor partir para o cultivo de grãos commodities, para ter lucro e sobreviver na atividade, deve optar pela agricultura orgânica. 'É a maneira de se diferenciar e ganhar dinheiro.'

Toda a safra de milho orgânico da Fortaleza, que será colhida em março, já tem comprador: a Vila Yamaguishi, de Jaguariúna (SP), que precisa do milho para abastecer a criação orgânica de 8 mil galinhas poedeiras. 'Fechamos a compra de 2 mil a 3 mil sacas de 60 quilos/ano', conta um dos sócios da Yamaguishi, Romeu Mattos Leite.

CULTIVO PRÓPRIO

A Yamaguishi também tem cultivo próprio, em torno de 12 a 15 hectares/ano, com produtividade de 150 sacas de 60 quilos/hectare. Para conservar todo esse milho ao longo do ano sem venenos ou fumigações - práticas proibidas na agricultura orgânica -, Leite armazena o milho, com umidade máxima de 14%, em um silo metálico, e ventila os grãos duas horas/dia.

Leite diz que o problema principal do milho para alimentação animal é a incidência de fungos, daí a necessidade de não permitir nenhum tipo de umidade. 'O caruncho até ataca o milho, mas as galinhas adoram.'

Leite concorda que haja um gargalo para a expansão de criações orgânicas no País, por causa da escassez de milho orgânico no mercado. 'Quando preciso, porém, comprar milho de terceiros não tenho tanta dificuldade', diz. 'Lógico que não é como o milho convencional, que basta um telefonema', continua. 'Temos de procurar mais, mas sempre encontramos.'

Tânia Rabello