Importação de trigo deverá bater recorde na atual safra (Valor Econômico)

21/09/2006

Importação de trigo deverá bater recorde na atual safra


 

As importações brasileiras de trigo deverão bater recorde e somar cerca de 8 milhões de toneladas nesta safra (2006/07), superando a marca de 1999/00, quando o país adquiriu 7,7 milhões de toneladas no exterior. A queda da área plantada no Brasil e o longo período de estiagem no Sul do país, seguido de geada entre o fim de agosto e o início de setembro, foram fatais para a produção nacional do cereal, segundo Élcio Bento, analista da Safras&Mercado.

Se confirmadas as estimativas, as despesas com as importações podem superar US$ 1,2 bilhão, conforme a Safras&Mercado. No ciclo 2005/06, encerrado em julho, os gastos alcançaram US$ 911,3 milhões, incluindo trigo em grão e farinha. Nos primeiros sete meses deste ano, o volume trazido de fora somou 3,9 milhões de toneladas.

Maior Estado produtor do país, o Paraná foi um dos mais prejudicados. A colheita no Estado, que teve início há algumas semanas, deve ficar em 940 mil toneladas. A estimativa inicial era de que a produção superasse 1,5 milhão de toneladas. No Rio Grande do Sul, que perdeu a liderança na produção na década de 80, a oferta será de 850 mil toneladas, bem próxima à paranaense. Com isso, a produção nacional deverá somar 2 milhões de toneladas em 2006/07, 55% menos que em 2005/06 (4,4 milhões de toneladas). O consumo nacional é de 10 milhões de toneladas por ano.

Segundo Lawrence Pih, presidente do Moinho Pacífico, de São Paulo, as indústrias devem buscar mais trigo dos EUA e Canadá, uma vez que a produção da Argentina, maior fornecedora de trigo para o Brasil, ainda é incerta, por conta do clima. A última estimativa do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) sinalizou produção de 13,25 milhões de toneladas de trigo no vizinho. O mercado, porém, estima uma oferta menor. Nos últimos anos, os argentinos forneceram cerca de 95% do trigo importado pelo Brasil. Essa participação deverá cair agora para 80%.

"O Brasil terá que importar de 2,5 milhões a 3 milhões de toneladas de terceiros países", diz o presidente do Sindicato das Indústrias de Trigo do Rio Grande do Sul (Sinditrigo-RS), Cláudio Luiz Furlan.

Os moinhos gaúchos consomem cerca de 1 milhão de toneladas de trigo por ano e precisam importar 30% deste volume para fazer a mistura entre diferentes tipos de grãos. De acordo com Furlan, o setor vem insistindo na suspensão, pelo menos temporária, da Tarifa Externa Comum (TEC) sobre as importações de trigo da América do Norte porque a Argentina não deverá dispor de oferta suficiente.

A quebra da safra gaúcha provocada pelas geadas deverá ser de pelo menos 25% em relação à previsão inicial de produção, de 1,193 milhão de toneladas. Conforme o assistente técnico estadual da Emater-RS, Ataídes Jacobsen, as perdas poderão ser maiores devido aos danos sofridos pelas lavouras de trigo no período de frio.

A Cooperativa Agropecuária de Maringá (Cocamar), de Maringá (PR), que negocia farinha de trigo no varejo, não deve aumentar seus volumes comercializados no mercado por conta da quebra. Segundo o gerente comercial da Cocamar, José Cícero Aderaldo, a empresa deve comercializar neste ano 7 mil toneladas de trigo, ante 35 mil toneladas na safra passada.

Nesta semana, os preços da tonelada do trigo no Paraná estão entre R$ 420 a R$ 430, um aumento médio de 25% em relação a igual período do ano passado. No Rio Grande do Sul, as cotações do trigo saem entre R$ 415 a R$ 430, uma elevação média de 28% sobre igual período do ano passado, segundo a Safras&Mercado. "A expectativa é de que os preços continuem firmes", afirmou Bento, da Safras.

Conforme Jacobsen, do Emater-RS, a colheita do trigo gaúcho começa por volta do dia 10 de outubro na região das Missões, no noroeste do Estado, e a alta dos preços registrada nos dois últimos meses em função dos problemas da safra não servem de consolo para o produtor. "Houve alta de 10%, para R$ 22 a saca, mas a quebra será maior do que isto", comenta. "E não adianta preço mais alto se o produtor não tiver o que vender".

Mônica Scaramuzzo e Sérgio Bueno