Receita das fazendas perderá peso
A geração de receita nas fazendas ("da porteira para dentro") terá uma participação cada vez menor no agronegócio mundial. Uma projeção feita por Ray Goldberg, professor emérito de Agricultura e Negócios da Universidade de Harvard (Harvard Business School), nos EUA, aponta que a fatia da receita agrícola deverá cair de 15%, em 2000, para 10% em 2028. Considerado um dos "pais" do agronegócio, Ray Goldberg foi um dos difusores do conceito na década de 50, e ainda hoje é considerado referência mundial.
Ele projeta que o agronegócio deverá movimentar US$ 10,24 trilhões por ano até 2028, ante US$ 5,64 trilhões em 2000. A receita gerada no campo deverá subir de US$ 1,12 trilhão para US$ 1,52 trilhão na mesma comparação. Conforme os cálculos do pesquisador americano, o segmento que mais vai crescer no período será o de processamento e distribuição de alimentos, cuja receita tende a dobrar e alcançar US$ 8 trilhões por ano.
"Nas últimas décadas, surgiram novos produtos, novos competidores. Para se posicionar nesse mercado é necessário não apenas fazer parcerias de longo prazo, mas parcerias no longo prazo", afirmou Goldberg. Ele lembrou que os consumidores exigem cada vez mais produtos diversificados e que respeitem regras de responsabilidade socioambiental e de segurança alimentar. "Houve uma consolidação nos agronegócios. Hoje cada segmento é controlado por quatro ou cinco empresas. Não há como crescer neste mercado senão sendo responsável, senão seguindo as exigências do consumidor".
Nesse cenário, afirmou, o Brasil é hoje o país com melhores condições de alcançar a liderança no agronegócio mundial. "O mundo reconhece que há poucos países que podem expandir a produção agrícola, e o Brasil é que possui mais recursos naturais disponíveis". Ele também observou que há uma preocupação crescente no mercado externo com a rápida expansão do agronegócio brasileiro, principalmente no que diz respeito aos efeitos ao meio ambiente. "O Brasil precisa se preocupar com a responsabilidade socioambiental, de uma postura pró-ativa".
Goldberg não sabe dizer se o segmento industrial e de distribuição crescerá no Brasil tanto quanto no exterior. Nos últimos anos, alguns segmentos, como o de soja, reduziram a capacidade instalada no Brasil e reforçaram a aposta em mercados como o argentino e o chinês. "Esse movimento de transferência é natural, acontece em todo o mundo. Como vamos fazer? Temos que ajudar os produtores a também mudar, a diversificar". Goldberg participou do seminário "Perspectivas do Agronegócio: um panorama para os próximos 5 anos", promovido pela Agrenco na sexta-feira, em Veneza (Itália).
Cibelle Bouças