Mie Brasil 'garimpa' cultivos exóticos

31/10/2012

Mie Brasil 'garimpa' cultivos exóticos
 

 

Diego Badaró acredita que guarda um tesouro em suas propriedades no sul da Bahia, na forma da variedade de cacau de qualidade Pará-Parazinho, nativa da Amazônia e atualmente rara no país, já que seu cultivo foi substituído por plantas híbridas e resistentes à vassoura-de-bruxa, fungo que dizimou as lavouras no Estado, maior produtor.

A colheita de 60 a 80 toneladas em quatro meses por ano - de abril a julho - de frutos marcados por um sabor cítrico é direcionada à fabricação de chocolates finos da Amma, empresa da qual é sócio. No total, incluindo a produção de terceiros, a produção da Amma chega a cerca de 100 toneladas por ano.

Desde o início do mês, Badaró começou a encaminhar uma pequena parte da sua colheita - o primeiro pedido foi de 30 quilos - para o projeto "Retratos do Gosto", lançado neste ano por produtores agrícolas em parceria com o chef de cozinha Alex Atala e com Gustavo Succi, sócio da companhia Mie Brasil, cuja meta é incentivar pequenos agricultores a cultivar produtos desconhecidos do grande mercado.

"Existe um público disposto a ter acesso a esses alimentos", afirma Succi. A condição para manter a parceria é que 25% do lucro líquido das vendas seja direcionado pelos agricultores a programas sociais ou de assistência técnica. No caso de Badaró, os recursos serão aplicados em uma escola rural em sua região de plantio.

As amêndoas baianas, depois de descascadas, levemente torradas e quebradas vão compor as granolas doce e salgada recém-lançadas pela cozinheira e escritora Heloisa Bacellar, que as vende por R$ 15 o pacote de meio quilo.

De acordo com Succi, a proposta é sempre associar o produto a um chef que tenha ligação com o campo. Antes de inaugurar o projeto "Retratos", a Mie Brasil distribuía os chocolates da Amma, que tem sede em Salvador, em dez Estados do país e já exportava para clientes nos Estados Unidos, Austrália, Coreia do Sul, Europa e Escandinávia.

Badaró explica que não hesitou em aceitar o convite para participar do projeto. "É a valorização de um fruto que compõe um pedaço da história do país", comenta. Pertencente à quinta geração de uma família de cacauicultores - que, por sinal, foi registrada no romance "Terras do sem fim", de Jorge Amado, em 1948 -, ele tinha experiência do que é encarar um projeto novo.

Há oito anos, assumiu os 600 hectares da família, que estavam abandonados. Por essa razão, de acordo com ele, foi mais fácil implantar o cultivo orgânico sob o sistema cabruca, que faz uso da sombra, da umidade e da fertilidade da Mata Atlântica.

No meio do caminho, Diego Badaró encontrou um parceiro: o americano Frederick Schilling, que foi dono da Dagoba, empresa de chocolate orgânico vendida à Hershey's. O cacauicultor não revela o investimento, mas mantém com o sócio o firme propósito de transformar a Bahia em um polo de chocolate, e não apenas referência na produção de cacau.

Com a Mie Brasil, criada pelo publicitário Gustavo Succi e dois sócios a partir de um investimento inicial de R$ 500 mil, Badaró espera acelerar essa transformação, o que vai ao encontro dos objetivos de Succi. "Eu queria uma empresa que fizesse 'algo a mais'. Acho que foi a crise da meia idade", brinca Succi.

Antes de Diego Badaró, o publicitário encontrou Chicão Ruzene, como prefere ser chamado o produtor de arroz de Pindamonhangaba, no interior paulista.

O agricultor entrou no mercado de produtos gourmet por necessidade e uma boa dose de ousadia. Chicão era produtor de arroz agulhinha em 200 hectares de terras arrendadas no Vale do Paraíba e não aguentava mais somar prejuízos. "Pena que a região não tinha vocação para soja", ironiza.

Como última tentativa, ele plantou uma variedade de arroz preto por indicação de um falecido pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e mandou uma amostra para o Alex Atala. Para sua surpresa, o chef ligou uma semana depois encomendando o cereal e perguntando por outras novidades.

Chicão se deu conta da oportunidade que teve e relembrou o conselho do pesquisador Cândido Bastos: "Faça um produto para gente rica consumir". Hoje ele produz mil toneladas por ano de oito tipos diferentes de arroz, mas o que está na "Retratos do Gosto" é o miniarroz - uma variação natural do cateto integral e enjoada para cultivar, com difícil germinação e planta fácil para tombar com o vento.

O produtor passou cinco anos selecionando as melhores sementes de cada safra desse grão diminuto e fez sua primeira colheita de 30 toneladas no fim do ano passado compradas antecipadamente, por R$ 5 o quilo com casca, pela Mie do Brasil.

O agricultor montou um centro de pesquisa para testar mudas de 100 variedades e conta com a ajuda da irmã, que é engenheira agrônoma. Ele comenta que seis anos foram suficientes para mudar o rumo da sua vida. Investiu R$ 1 milhão na propriedade, fez parceria com oito produtores da região, mas não se deu por contente.

Agora quer transformar o Vale do Paraíba em um polo de arroz especial e encorpar o cardápio da Mie, que se prepara para parcerias com produtores de mandioca e de pimentas brasileiras.

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