Rebanho pouco aproveitado
A máxima de que do boi tudo é aproveitado, até mesmo o berro, está sem forças na Bahia, pelo menos na pecuária de corte, que necessita de um bom toque de ferrão para estabelecer sua fatia no mercado e se firmar como atividade econômica.
O setor está restrito praticamente à comercialização da carne, diz o pecuarista feirense Paulo César Bastos, também autor de artigos (www.beefpoint.com.br ). Ele é irônico quando faz alusão à situação do mercado do gado de corte na Bahia, reacendendo o debate: “Ainda estamos como nos tempos de Garcia D‘Ávila, o homem que introduziu a pecuária no Brasil durante o período da colonização, no século XVI. Do boi, a gente somente está vendendo a carne, o bucho e o couro”.
Ele defende investimentos na cadeia produtiva de maneira que a pecuária de corte “possa consolidar uma relação de oferta e procura que dê retorno financeiro justo ao produtor e um preço mais acessível e uma variedade de produtos ao consumidor”.
Trocando em miúdos, diz o pecuarista, “a questão toda é que tem boi demais para pouco consumo”.
O Brasil, incluindo o Estado da Bahia, avançou muito na genética, na tecnologia, na profissionalização, mas o preço da arroba tem caído bastante, na sua visão.
Mas, para o recém-reeleito presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), João Martins Júnior, o rebanho baiano carece de melhorias genéticas, de manejo, no tratamento contra parasitas e até de transporte para o frigorífico.
Ele lembra que tudo isso tem reflexos negativos não apenas na carne, mas, também, na qualidade do couro do animal. “A classificação de qualidade do couro produzido na Bahia não é das melhores, porque não há os devidos cuidados até em ferrar o animal”, diz.
Historicamente, os pecuaristas conseguiam manter o preço da arroba exatamente no mesmo patamar do valor de venda de um rolo de arame farpado. Hoje, na Bahia, a arroba varia de R$ 47 a R$ 54 e o rolo de arame custa R$ 120.
Paulo Bastos considera um desafio a evolução dos frigoríficos, “de simples desmontadores de carcaça bovina”, como define, para unidades industriais a produzirem ou fomentarem um pólo para um leque de subprodutos. “Na Bahia não se produz nem uma mortadela”, exemplifica.
Então, sugere a criação de pólos de produção de carne no Estado, levando-se em conta a localização estratégica e potencialidade de cada uma das regiões mais produtivas da pecuária de corte. O objetivo é desenvolver a linha de subprodutos a partir do sebo (sabão e sabonete), fertilizantes, curtumes, artefatos de couro, rações e até materiais médicos e cirúrgicos (utilização das tripas).
O primeiro pólo seria criado em Feira de Santana, em torno do Frigorífico de Feira (Frifeira), da Cooperativa Agropecuária de Feira de Santana (Cooperfeira). A proximidade com o Pólo Petroquímico de Camaçari pode favorecer, ainda, na criação de uma central de matériaprima bovina.
Paulo César Bastos deseja mais que abater para o mercado local # 403 milhões de dólares. Este foi o volume de vendas de carne bovina brasileira para o exterior em agosto, registrando um recorde. A melhor marca anterior ocorreu em julho deste ano, de US$ 355 milhões.
“É uma questão de similaridade: o Pólo Petroquímico tem uma central de matéria-prima, a antiga Copene, que distribui, para outras empresas, um elenco de produtos químicos que são usados na fabricação de outros. A indústria da carne é similar”, explica. Paulo Bastos cita, para exemplificar o quadro de atraso na indústria de corte na Bahia, que a carne industrial produzida no Estado é vendida para fábricas instaladas em São Paulo, para servir de matéria-prima na produção de lingüiça, salsicha e mortadela. “A salsicha foi inventada há 200 anos, mas até hoje a Bahia não produz algo tão simples. Aqui, temos montadora de automóveis, mas não industrializamos uma simples salsicha”, ironiza. O pecuarista chama a atenção para o fato de Feira não ser o “grande centro da pecuária na Bahia”, como algumas pessoas ainda propagam, embora seja forte mercado para o agronegócio da pecuária, com frigorífico, comercialização de gado, fábrica de ração e comércio de insumos. FORA DO PADRÃO – Na visão do presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia, João Martins Júnior, “o grande problema” da pecuária de corte na Bahia ainda é a falta de qualidade do rebanho. Alega que, por isso, os produtores não conseguem melhorias no mercado. Ele frisa que a produção de novilho precoce na Bahia não se enquadra nas exigências do mercado, para a exportação ou fornecimento a grandes compradores. A expressão "novilho precoce", segundo explicação de técnicos da Embrapa, é usada para definir o animal abatido mais jovem, entre 30 e 36 meses, contra o do sistema tradicional, entre 42 e 48 meses. O presidente da Faeb cita a região de Itapetinga, onde está instalado o frigorífico do Grupo Bertin – um dos maiores exportadores de carne do País. Segundo João Martins, dos 10 mil bois que são abatidos na unidade, mensalmente, cerca de 90% não estão dentro dos padrões de qualidade. Ele rebate a possibilidade, no atual momento da pecuária baiana, do fabrico de subprodutos como salsicha, lingüiça e a mortadela, com um argumento: se o Estado não tem um rebanho de qualidade, como produzir carne industrial suficiente para suprir de matéria- prima os fabricantes?
Edson Borges