Rio faz 505 anos resistindo a agressões
O bispo da Diocese de Barra, D. Luís Flávio Cappio, faz questão de ressaltar: apesar de todos os processos de degradação ambiental que vem sofrendo, o Rio São Francisco, identificado pelo navegador italiano Américo Vespúcio em 4 de outubro de 1501, resiste e é a principal fonte de sustentação econômica e social do semiaacute;rido. Hoje, às 6 horas da manhã, o bispo celebra os 505 anos de descoberta do Velho Chico com uma missa seguida de procissão fluvial, no município de Barra, a 790 quilômetros de Salvador. Na sexta-feira, uma série de eventos comemorativos à data tem lugar na cidade de Cabrobó, Estado de Pernambuco.
O São Francisco foi navegado pela primeira vez por europeus um pouco mais de um ano após a chegada ao Brasil da esquadra de Pedro Álvares Cabral. O navegador italiano Américo Vespúcio, em viagem patrocinada pelo comerciante português Fernão de Noronha, chegou à foz do rio em 4 de outubro de 1501, dia de São Francisco, santo em cuja homenagem os navegadores europeus batizaram o rio.
Para as diversas nações indígenas que habitavam a região, porém, aquelas águas tinham um nome antigo: Opará, que significa algo como “rio-mar”, já que o São Francisco deságua no mar.
A partir da viagem de Vespúcio, o São Francisco passou a ser visitado regularmente pelas naus européias e, mais tarde, seria o principal caminho para a colonização dos sertões goianos, o chamado Brasil-Central. No primeiro momento, porém, o terreno desconhecido e a resistência dos índios dificultaram o domínio da região.
Duarte Coelho, em 1545, transpôs a sua foz e instalou o primeiro povoado por trás das “rocheiras”, batizada de Penedo. Lá foi erguido o Forte Maurício, emhomenagem a Nassau. Em 1549, Thomé de Souza recebeu ordens de dom João III para “providenciar a dominação das margens do Rio Peraçu de São Francisco, com línguas da terra e pessoas de confiança”. Francisco Garcia d’Ávila foi então encarregado de adentrar o São Francisco.
D‘Ávila, então, já era dono da metade do Estado da Bahia e todo o Sergipe. Ele desbravou o rio, escravizou índios e criou gado.
REVITALIZAÇÃO – D. Luís Flávio Cappio, bispo da Diocese de Barra, protagonizou uma greve de fome que durou 11 dias, entre 26 de setembro e 6 de outubro de 2005, na cidade de Cabrobó, em Pernambuco, protestando contra a transposição do São Francisco, projeto concebido pelo governo federal, através do Ministério da Integração Nacional.
A greve de D. Luís teve enorme repercussão no País e forçou a ida a Pernambuco do então ministro da Articulação Política do presidente Lula e governador eleito da Bahia, Jaques Wagner, que se comprometeu, à época, a rever o projeto da transposição e rediscutir o assunto com a sociedade.
PROGRAMAÇÃO – Na entrada da cidade pernambucana de Cabrobró fica a Capela de São Sebastião.
Lá, D. Luís Flávio Cappio se alojou para realizar a greve de fome e também foi nessa capela que foi firmado, com o governo federal, um compromisso de só se fazer a transposição das águas do São Francisco após a realização de projetos e obras de revitalização para o rio. Esse acordo deu fim à greve do bispo e teve como representante do governo o então ministro Jaques Wagner.
“Podemos dizer que, após todo aquele episódio, a situação de revitalização passou a ser a prioridade do governo federal, e algumas ações de destruição do rio, como a implantação de carvoarias, desapareceram”, disse D. Luís.
As carvoarias, denunciadas pelo bispo e por ambientalistas, atuam, principalmente, em municípios do norte deMinas Gerais, a partir da Represa de Três Marias, até o município de Manga, na divisa com a Bahia, e nas regiões dos municípios baianos de Carinhanha, Sítio do Mato, Paratinga, Mansidão, Buritirama e Barra.
Adilson Fonseca