ACHADO CIENTÍFICO
MAIZA DE ANDRADE - mandrade@grupoatarde.com.br
O lagarto-papa-vento é um velho conhecido nos gerais de Mucugê, no topo da cordilheira do Sincorá, na Chapada Diamantina. Acreditam os nativos que a mordida dele só se solta no período das trovoadas.
Para espanto dos seus auxiliares, a bióloga Thaís Silva não contrariou a crendice, ao pegar bicho com as mãos, como também surpreendeu a ciência ao se deparar com aquele lagarto ainda desconhecido e iniciar sua observação científica.
O achado da Chapada foi reconhecido ao ser publicado na mais recente edição da revista científica Phyllomedusa, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). Nos anais científicos, papa-vento ganhou o nome pomposo de Enyalius erythroceneus teve todos os seus detalhes descritos no artigo enviado por Thaís Marco Antônio Freitas e referendado pelo herpetólogo Miguel Rodrigues e pela doutora em genética répteis, Carolina Bertolotto.
O encontro de Thaís com o lagarto foi numa das operações resgate de fauna de uma área da Fazenda Caraíbas, que foi desmatada para o cultivo de batatas.
Acompanhada do geógrafo e especialista em fauna silvestre Marco Antônio Freitas, seu marido, Thaís percebeu se tratar de uma espécie incomum ao ser atraída pela coloração alaranjada do dorso do lagarto.
“Me chamou a atenção o colorido uniforme dos machos”, observou ela. Eram os atributos do papa-vento macho mais uma vez atuando na natureza.
Thaís e Marco coletaram seis exemplares do lagarto e enviaram para o museu de zoologia da USP, onde o bicho foi fichado. O casal foi contratado para fazer o inventário da macrofauna da fazenda antes do desmatamento para implantação de um projeto de irrigação.
Marco destaca como “maior trunfo”trunfo” da descoberta, a prova do quanto a ciência ainda tem a fazer para conhecer a biodiversidade da região em torno do Parque Nacional da Chapada Diamantina.
Na sede do parque, em Palmeiras, o analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Cezar Gonçalves, destacou a importância do achado de Thaís e Marco chamando a atenção para o fato de ter sido a primeira vez que um projeto agrícola foi licenciado com a obrigação de antes fazer o levantamento da fauna e o resgate, o que possibilitou a descoberta.
“Isso mostra a necessidade de se conhecerem as áreas naturais antes de liberar atividades econômicas”, disse ele.
OUTROS ACHADOS – O levantamento da fauna da Fazenda Caraíbas também rendeu a descoberta de outras três espécies de lagartos (o Psilophtalmus sp, o Euro lophosaurus sp e a bibra-brilhante, Mabuya sp, além da cobra-cega, Amphisbaena sp. Segundo Marco Freitas, as quatro prováveis novas espécies estão em fase de descrição no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.
A fazenda, de aproximadamente cinco mil hectares, está situada em torno do parque nacional. Os estudos foram executados entre os meses de novembro de 2004 e janeiro de 2005. Durante as campanhas, foram capturadas e inventariadas espécies de vertebrados do grupo das aves, mamíferos, peixes, répteis e anfíbios.
Marco comemora o fato de, ao final do estudos, ter conseguido a ampliação da área de proteção permanente de 100 metros de largura para 300 metros da margem da Barragem do Apertado e a criação de reserva legal da fazenda, contígua ao parque nacional, com aproximadamente 2.500 hectares de vegetação nativa.
A nova espécie de réptil foi encontrada nos campos gerais de Mu