Mais capitalizados, produtores de café "seguram" vendas (Valor Econômico)

20/10/2006

Mais capitalizados, produtores de café "seguram" vendas


 

A comercialização da atual safra de café (2006/07), cuja colheita já foi praticamente concluída no país, está em ritmo lento. A desaceleração das vendas é proposital, e reflete a estratégia dos produtores brasileiros de esperar preços mais atraentes para finalizar seus negócios. A expectativa é que isso só ocorra a partir de fevereiro do ano que vem, época de entressafra nos principais países exportadores.

Mais capitalizados por conta da liberação de uma linha oficial de financiamento para estocagem, e com cotações firmes no mercado internacional, os cafeicultores do Brasil no momento vendem apenas o suficiente para pagar dívidas de curto prazo, de acordo com analistas ouvidos pelo Valor.

É a primeira vez, desde o início da última crise de preços do grão, em 2001 - ela durou até 2004 -, que os cafeicultores têm fôlego para traçar uma estratégia de comercialização sem ter de "queimar" estoques para gerar caixa. Nos últimos 12 meses, na bolsa de Nova York, os contratos futuros de segunda posição de entrega ainda acumulam recuo 1%. Nos últimos dois anos, contudo, a valorização chega a 39%. No mercado interno, o comportamento é parecido. O indicador Cepea/Esalq para a saca de 60 quilos do café arábica aponta baixa de 8,8% em 12 meses, mas salto de 9,2% nos últimos 24.

Nesse cenário, levantamento do Conselho Nacional dos Cafeicultores (CNC) mostra que o ritmo de comercialização da atual safra está 15% mais lento que o verificado no ciclo anterior. "O fato de os produtores terem tido acesso a recursos do governo para financiar a safra dá mais fôlego ao setor produtivo", afirma Maurício Miarelli, presidente do CNC.

Em 2006/07, o governo federal liberou R$ 400 milhões para o custeio da produção, R$ 600 milhões para a colheita e R$ 800 milhões para estocagem. "Esses recursos ajudam o produtor a se organizar já para a próxima temporada [2007/08], que será menor por conta da bianualidade da safra".

Desde o fim de 2004, quando os preços internacionais da commodity começaram a subir, os cafeicultores aproveitam para reestruturar suas dívidas e para investir nas lavouras. "Mas entre 2001 e 2004 os produtores perderam R$ 2,5 bilhões em renda", diz Miarelli.

Segundo ele, as atuais cotações internas já estão um pouco acima dos custos de produção. "Não vale a pena vender no momento". Mas, como ressalta Rodrigo Costa, operador da Fimat Futures, o câmbio ainda compromete a renda do segmento, apesar dos melhores preços no exterior.

Nos últimos anos, em razão das sucessivas crises de preços, os produtores de café estão se diversificando - ainda que em menor proporção que em outras culturas, como grãos. "Os cafeicultores são muito teimosos", diz Miarelli. No início dos anos 90, a área plantada era de quase 3 milhões de hectares. Atualmente, são cerca de 2,3 milhões.

"Apesar da redução de área, a produtividade cresceu nos últimos anos", afirma Miarelli. O crescimento médio da eficiência alcançar 32,3% em comparação com a safra 2001/02. Atualmente, a produtividade brasileira média é de 19 sacas por hectare.

Segundo Costa, da Fimat, as perspectivas são de que os preços sigam firmes em 2007, quando o Brasil, em sua bianualidade, colherá uma safra menor. No curto prazo, entretanto, haverá alguma pressão no mercado com a entrada da colheita do Vietnã - que deverá chegar a 17 milhões de sacas, um recorde - e também da safra da América Central.

"Mas o mercado já está atento à quebra da safra no sul de Minas Gerais, que foi atingida pela seca", diz Rodrigo Costa. Uma projeção mais exata sobre o tamanho da safra brasileira será feita a partir do início do ano que vem.

Preliminarmente, fontes do mercado estimam uma produção média de 35 milhões de sacas para 2007/08 no país. A atual colheita, de acordo com a Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) alcança 41,5 milhões de sacas - no mercado, estima-se até 46 milhões de sacas.

"Apesar desta maior safra, os estoques no país estão apertados", afirma Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, em Santos (SP). "Temos que considerar que o Brasil está exportando uma média de 26 milhões de sacas e tem um consumo de 16 milhões de sacas anuais", observa ele.

No mercado interno, o consumo do café torrado e moído tem crescido a cada ano, e deve encerrar 2006 em 16,5 milhões de sacas, segundo Nathan Herszkowicz, diretor da Abic (Associação Brasileira da Indústria do Café). A expectativa é que em 2007 o consumo atinja 17 milhões de sacas e, em 2010, 20 milhões. Os embarques de torrado e moído, ainda em menor escala na comparação com os em grão, devem alcançar US$ 29 milhões este ano, 57% mais que em 2005.

No cenário internacional, as perspectivas são igualmente otimistas. "A demanda mundial por café tem crescido, em um momento que os estoques globais nas mãos dos importadores estão em queda", diz Carvalhaes.

Mônica Scaramuzzo