Especialista defende "projeto de país"
"Um projeto de país". Para o professor Mauro de Rezende Lopes, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), é disso que o agronegócio brasileiro ainda carece, e para construir um arcabouço capaz de maximizar ganhos em ciclos de alta de preços e minimizar perdas nas fases de vacas magras, é necessário blindar o setor com aportes em ciência e tecnologia.
Tais investimentos em inovação, segundo Lopes, dependem do desempenho das exportações, vitais para garantir remuneração e para o equilíbrio entre oferta e demanda domésticas. Trata-se de um círculo: mais tecnologia resulta em aumento da produção e, teoricamente, do excedente exportável. Competitivos, esses embarques são escoados, ampliam renda e geram recursos para novos investimentos. Sem competitividade, a produção fica represada no país e pressiona os preços. "Ou seja, o produtor 'morre' pela eficiência".
Nesse ponto, afirma ele, é preciso atenção principalmente com os fatores câmbio e logística, além das negociações multilaterais para a liberalização do comércio global. E é por isso que, segundo Lopes, os baixos preços de alimentos como milho, soja, arroz e feijão, que prevaleceram por praticamente todo o ano no país sob influência de um real valorizado, pode representar prejuízo ao país no longo prazo.
A análise do professor ganha particular importância se levadas em conta suas pessimistas projeções para a evolução dos preços de soja e milho no mercado internacional nos próximos anos. Com base em informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE ), as perspectivas de Lopes para ambos são as piores da última década.
Lopes não acredita que os preços do milho chegarão ao ciclo 2014/15 muito acima de US$ 2,40, apesar da prevista maior demanda para a produção de etanol. Ontem, na bolsa de Chicago, os futuros para março fecharam a US$ 3,3925 por bushel, em alta de 3,50 centavos de dólar. No caso da soja, o professor não prevê mais que US$ 5,75 em 2014/15. Ontem, em Chicago, os contratos para janeiro registraram queda de 1,50 centavos de dólar, para US$ 6,3550 por bushel.
Com esses patamares de cotações - que obviamente dependem de fatores impossíveis de se prever hoje, como o clima -, ressalta o especialista, as exportações de milho são inviáveis, sobretudo ao câmbio atual, e mesmo os embarques de soja da região Centro-Oeste perdem sua competitividade. "A soja que está perto do porto sai. Mas a do Centro-Oeste não, e a saída neste caso é a industrialização". Para isso, contudo, as indústrias pedem mudanças nas regras tributárias definidas pela Lei Kandir, de 1996.
Mas, ainda no que se refere ao mercado doméstico, Lopes acredita que pelo menos um alento para os grãos virá do segmento de carnes, que têm um horizonte "muito positivo" pela frente. Para as carnes de frango e bovina, o professor do Ibre projeta sucessivas altas de preços no exterior até 2014. Nesta frente, porém, não se pode descuidar das questões que envolvem a sanidade dos produtos brasileiros, sob o risco de o país continuar enfrentando barreiras nos países importadores. É o que acontece hoje com as carnes bovina e suína em razão dos focos de febre aftosa descobertos no ano passado no Mato Grosso do Sul e no Paraná.
Fernando Lopes