Cacau, banana e látex cultivados na terra do dendê
Nos municípios de Ituberá e Igrapiúna, baixo sul da Bahia, região conhecida como Costa do Dendê, pequenos produtores plantavam a seringueira no tradicional sistema de monocultura, com 500 plantas para cada hectare. Uma fileira de árvores era plantada distante 8 metros da seguinte e 2,5 metros das árvores ao lado.
Mas, a partir do final de 2004, o sistema foi alterado, por sugestão daMichelin, indústria francesa de borracha e pneus, que possuía cerca de 5 mil hectares com plantações de seringueira na região. Diminuiu para 400 árvores por hectare e a distância entre as fileiras aumentou para 17 metros, com o espaço usado no plantio de 900 cacaueiros em cada hectare e também bananeiras.
“A diversificação de culturas significa aumento de renda e garantia de dinheiro no período em que a seringueira ainda não começou a produzir, nos primeiros seis anos”, explica Ivo Cairo, gerente de campo e responsável pela agricultura familiar nas Plantações Michelin da Bahia.
As mudas das culturas são fornecidas pela própria empresa a 12 médios produtores (ex-funcionários ou ainda ligados à Michelin), cada um proprietário de 400 hectares, e a mais 500 agricultores familiares, que aprendem técnicas de sangria da seringueira.
A área dos médios produtores foi vendida pela Michelin, com crédito próprio, para ser saldado em oito anos, a contar de novembro de 2004, quando as terras foram entregues.
Cada propriedade custou de R$ 700 a R$ 900 mil. Os seringais, antes pertencentes à Firestone, tinham mais de 40 anos. As plantas esta-vam afetadas pelo mal-das-folhas, doença causada pelo fungo Micocyclus ulei, que ataca e dizima as ser ingueiras.
Os agricultores familiares, por sua vez, receberam crédito pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf): R$ 10 mil por hectare, com quatro anos de carência para os recursos investidos nos cacaueiros e oito na seringueira, sob taxa de juro de 3%, sem correção monetár ia.
“Temos o benefício de fixar a população no campo, pois uma família toma conta de 2 a 2,5 hectares e a cultura é rentável por um período de até 40 anos”, afirma Ivo Cairo.
O diretor das PlantaçõesMichelin na Bahia, o francês Lionel Barré, frisa que a empresa não presta assistência social.
“Nosso trabalho não é filantrópico, é bussines (negócio), mas dentro de um foco de responsabilidade ambiental e social muito grande. Não pensamos só no lucro; pensamos no lucro de todos”.Nessa linha, os 257 funcionários da Michelin foram contratados pelos novos donos da terra. Somente um pediu demissão. Mais 250 funcionários foram admitidos.
A maioria deles mora em áreas como a Vila Canário, que tem 136 casas, posto de saúde e escola construídos pela empresa e assistidos pela prefeitura de Igrapiúna.
Nesse município, um novo bairro está para nascer, com água encanada, energia elétrica, escola, creche e centro de comércio e lazer.
As construções devem começar no próximo mês e as primeiras casas entregues em 2010. São imóveis com custo de R$ 17 mil, a seremfinanciados com parcelas decrescentes.
COOPERATIVA – Os 12 médios proprietários formaram a Cooperativa Ouro Verde, que negocia com a Michelin, compradora, sem exclusividade, do látex. Este ano, o comércio alcançou cerca de 2,6 mil toneladas. “Compramos insumos a preços mais baratos e fazemos a manutenção dos 200 quilômetros de estradas que ficam dentro da propriedade em consórcio com a Michelin”, explica o presidente da cooperativa, José Negrão.
A receita anual chega a R$ 7 milhões, mas os produtores alimentam a esperança de alcançar os R$ 20 milhões até 2020. Na cacauicultura, a produção anual é de 10 mil toneladas de cacau (1,5% da produção nacional).
Paulo Roberto Bonfim é um dos 12 médios produtores. Ele é gerente de comunicação das Plantações Michelin da Bahia e dono da Fazenda Pau-Brasil. Para exemplificar seu progresso, diz que o quadro de funcionários saltou de 18, em novembro de 2004, quando assumiu a fazenda, para os 40 atuais.