Safra de feijão encolhe na BA (A Tarde)

20/11/2006

Safra de feijão encolhe na BA

 

Os produtores rurais da microrregião de Irecê, município localizado a 478 km de Salvador, registraram uma acentuada queda na produção de feijão no acumulado de janeiro a outubro. De acordo com o levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que captou duas safras do grão no período, houve retração de 40,56% na primeira safra, com a apuração de aproximadamente 75 mil toneladas, e 23,37% na segunda, com cerca de 256 mil toneladas.

O desempenho é justificado principalmente por fatores financeiros.

Os produtores locais, agregados pela Cooperativa Agropecuária Mista Regional de Irecê (Copirecê), registram um débito aproximado a R$ 445 milhões com o sistema financeiro. Os maiores credores são o Banco do Brasil (BB) e o Banco do Nordeste (BNB). Impedidos de adquirir novos empréstimos, os agricultores, em sua maioria de pequeno porte, têm que plantar com recursos próprios.

Contudo, estão descapitalizados.

O presidente da Copirecê, Wilson Carvalho, avalia que, por conta da situação, o feijão vem perdendo espaço para culturas mais competitivas no mercado, como o milho, girassol e mamona – que acompanham a tendência de incremento no mercado de biodiesel – além do sorvo, produto similar ao milho, mas destinado ao alimento dos animais. “Além da falta de dinheiro, o tempo também não ajudou.

Quem plantou entre novembro e dezembro do ano passado perdeu tudo”, lamenta carvalho.

DESÂNIMO – As estimativas da Copirecê não são nada promissoras para a próxima safra. O desânimo está atingindo em cheio os produtores do município. A perspectiva seria plantar este mês e colher entre março e abril. Porém, de acordo com a diretoria executiva da cooperativa, apenas 10% das terras locais estão sendo aradas. Os cálculos prosseguem com a expectativa de retração de 70% da próxima safra, ante aos bons tempos de colheita no município, que colaboraram para credenciar a Bahia como o quarto maior produtor do grão no País.

O produtor rural Domingos Gualberto, também componente da Copirecê, detecta a chamada “seca verde”. “Acontece que, se não tem sol, não tem como arar a terra.

Só na minha propriedade, a chuva já registrou 350 mililitros. Tem lugar que choveu mais nas últimas semanas que no ano inteiro”, lamenta Gualberto.

Por conta do plantio intensivo, os produtores locais ainda se deparam com compactação do solo.

É um efeito colateral que a terra sofre após o revezamento de culturas, algo comum na região. Para resolver o problema, se faz necessária uma máquina específica, que revolve a terra, a fim de possibilitar o plantio. Com o desgaste, a produtividade local tem decaído a olhos vistos. Em 1987, eram 3.350 quilos por hectare, contra máximos 1,5 mil kg por hectare registrados atualmente.

RENEGOCIAÇÃO – Apesar do quadro atual, os produtores de feijão de Irecê podem ter uma nova chance de saldar seus débitos com os bancos oficiais. Através da Lei 11.322/2006, o BB e o BNB oferecem condições especiais de pagamento, que variam a partir do porte do tomador do empréstimo. O foco das negociações são as operações contratadas até 15 de janeiro de 2001, com limite de R$ 100 mil.

O valor compreende apenas o empréstimo, o que exclui juros de mora ou multas. O devedor ainda recebe rebate no valor da dívida e prazos de carência de até dois anos para saldar os débitos.

As instituições financeiras estão habilitadas a realizar as operações, desde o início do mês, inclusive com envio de cartas aos devedores, comunicando a oportunidade.

O agricultor da região que estiver em condições de acertar as suas contas deve se dirigir à agência do seu relacionamento e apresentar solicitação, realizada mediante preenchimento de formulário específico.

Os produtores alegam que estão há quase dez anos sem fechar nenhum empréstimo com os bancos.

Em 1996, eles enfrentaram uma severa quebra de safra, o que os impossibilitou de quitar os débitos contraídos na época.

A expectativa da Copirecê é que o montante da dívida recue de R$ 450 milhões para ao menos R$ 200 milhões.

LUIZ SOUZA