Método de enraizamento abre boas perspectivas para produtores rurais (A Tarde)

28/11/2006

Método de enraizamento abre boas perspectivas para produtores rurais

 

Randolpho Gomes Um novo método de enraizamento, idealizado por um produtor rural de Itabuna, promete trazer muitos benefícios para os agricultores. Trata-se do método da raiz nua, idealizado por Edgar Pacheco, 54 anos, contador apaixonado por agricultura e grande pesquisador independente da área. Motivado em criar alternativas que visassem driblar a crise que assolou a lavoura cacaueira, Pacheco passou a desenvolver variados experimentos no intuito de interferir positivamente nas técnicas agrícolas aplicadas na região. "Sempre fui, acima de tudo, um curioso", diz Pacheco.

O novo método consiste inicialmente na coleta de galhos de plantas frutíferas, que, após terem suas pontas banhadas numa solução estimulante, passam por um período numa estufa climatizada. Em seguida, misteriosamente, lançam inúmeras raízes e permanecem nesta situação até que as mudas estejam prontas para irem para o campo. "Justamente pelo fato de as raízes se desenvolverem sem terra nem substratos, veio a denominação da técnica: raiz nua", afirma. A composição da solução e os pormenores do método são segredos do contador.

São inúmeras as vantagens apresentadas pela nova técnica.

Inicialmente o menor custo de produção, a diminuição do tempo de lançamento das raízes, o considerável aumento do número de raízes desenvolvidas, maior vigor das mudas e maior praticidade no transporte. Nei Pontes, técnico agrícola que acompanha as pesquisas, ressalta que muitas vezes o frete pago pelo agricultor é maior do que o valor das mudas. "A facilidade é tanta que até dentro de uma mochila é possível transportar várias, como se fossem fardos de coentro, já que não é usada terra nas mudas", afirma.

Outra vantagem apresentada, segundo Pontes, é que não ocorre o crescimento atrofiado das raízes, conhecido como enovelamento, o que prejudica consideravelmente o desenvolvimento da muda.

Inicialmente a técnica foi idealizada visando apenas à lavoura cacaueira, mas com o desenvolvimento das pesquisas Pacheco descobriu que ela é adaptável para outras culturas agrícolas. Hoje as experiências são feitas com pupunha, mangustão, laranja, lima e seringueira. "Para cada cultura, a técnica tem um detalhe de aplicação diferenciado", ressalta Pacheco. O novo método pode ter também boa aplicabilidade no reflorestamento.

As experiências do agricultor acontecem na fazenda de sua propriedade, situada no distrito de Rio de Engenho, zona rural de Ilhéus (465 km de Salvador). Lá ele montou um verdadeiro laboratório, onde passa os fins de semana pesquisando incansavelmente. José Raimundo Bonnadie, técnico agrícola da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), afirma: "Sem dúvidas, o método é inovador e tem muito a acrescentar ao mercado, mas como qualquer novo experimento deve ser devidamente aprimorado e testado detalhadamente".

Outras culturas Na região sul da Bahia, com a crise do cacau, outras alternativas foram pensadas pelos agricultores. Constatou-se que algumas culturas tinham total compatibilidade com o clima e o solo local. Motivado por esta constatação, Pacheco intencionalmente abrangeu suas pesquisas visando também ao aumento da produtividade dessas alternativas. Na cultura da pupunha, por exemplo, a produção de mudas por semente obriga o agricultor a replantar anualmente as plantas de pupunha que não perfilharam, ou seja, não formaram os brotos, o que compromete sua produtividade e aumenta os custos de produção.

Já a aplicação do método da raiz nua possibilita algo inédito para esta cultura. É a viabilidade econômica de poder clonar estas plantas, o que trará grande êxito na obtenção de plantios de pupunha formados na sua totalidade com plantas com brotos. Isto garante ao produtor o aumento da produtividade em torno de 40%.

Especificamente com a seringa, Pacheco vislumbra grandes vantagens econômicas tanto em nível regional como nacional. Logo que se consegue o clone da mesma, pelo método da raiz nua, coletando haste oriunda de uma simples galha de uma seringueira qualquer, os resultados mostraram que entre a fase de semente e de plena produção da seringueira haverá uma redução de tempo em torno de dois anos. Esta pode ser uma boa notícia para o governo federal, que atualmente importa borracha, produto que se encontra em queda de produção e com o consumo em constante expansão.

Carlos Casaes/Ag. A Tarde Inicialmente, a técnica foi desenvolvida para a lavoura cacaueira, mas já está sendo experimentada por outras culturas.